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Inspiration Lab

Musicalidade: Casa

Recordo-me como se ainda ontem tivesse corrido, livre e feliz, pela Natureza que à minha volta crescia, livre e feliz. Tão bem me lembro das infinitas gargalhadas. Das intermináveis correrias. Dos joelhos esfolados. Das lágrimas atabalhoadamente disfarçadas quando tropeçávamos ou perdíamos um jogo no qual estávamos mesmo empenhados em ganhar. Dos concursos para ver quem gritava mais alto, corria mais rápido, ou lançava pedrinhas mais longe. Dos laços que tão firmemente nos juntavam, sem sabermos que, entre choros e risadas, maldades cometidas e perdoadas, fortes laços estávamos a criar. A vida era, então, simples. Eram as fortes e inesperadas tempestades que nos obrigavam a encontrar abrigos improvisados, conduzindo-nos a experiências simultaneamente incríveis e aterradoras. Eram os galhos, para nós varinhas mágicas. Eram as folhas secas, perfeitos ingredientes para as nossas poções. Eram os troncos caídos, que podiam ser navios, jangadas, canoas, foguetões. Era o correr para casa, tentando por tudo transpor a soleira da porta antes que a escuridão o nosso mundo engolisse, em parte pelo que ouvíamos dizer que à noite acontecia, em parte por não querermos ficar sem sobremesa. Era a inocência de quem desconhece o verdadeiro sofrimento. Era a paz de quem tinha ainda intacto o seu coração. Era o céu, o limite do nosso sonho, crença e ambição. 

Éramos novos. Tínhamos o futuro à nossa frente, o mundo aos nossos pés. Mas ainda não o sabíamos.
Juraria que ainda ontem nos revoltávamos contra tudo e contra todos, sentindo-nos visitantes nas nossas próprias casas, hóspedes das nossas vidas, desconhecidos no nosso mundo, intrusos na felicidade alheia. Partilhávamos o sentimento de não pertencer onde pertencíamos. Partilhávamos a vontade de querer fugir de onde não fugíamos. Eram tempos conturbados. Eram as noites passadas em claro, fora de casa até de madrugada, enquanto as nossas almofadas descansavam debaixo dos lençóis. Eram as respostas tortas a quem mais nos queria bem. Eram os cigarros à socapa fumados. Era a alegria de encontrar alguém que compreendesse a nossa incompreensão. Era o êxtase da descoberta do que já tantos antes de nós tinham descoberto. Era o não saber quem éramos, se éramos, porque éramos. Era a pressa de viver. Era o medo de perder.
Éramos novos. Tínhamos o futuro à nossa frente, o mundo aos nossos pés. E sabíamo-lo. Mas não queríamos saber.
Diria que ainda ontem nos juntámos, para partilhar nostalgias, para nos afogarmos nas reminiscências do doce passado que orgulhosamente em conjunto vivemos. Mas há muito que não nos recordamos das nossas peripécias. Porque crescemos. E já não somos os meninos que corriam e riam e brincavam até às suas forças se esgotarem. E já não somos os adolescentes inconformados com o mundo, ansiosos por se revoltarem.
Hoje, já não somos assim tão novos. E o futuro de outrora pertence, em parte, aos tempos que já não voltarão. Já caímos aos pés do mundo e o mundo já caiu aos nossos pés. E sabemo-lo. Mas fingimos não o saber.
Podemos ter-nos perdido. As amizades para sempre outrora juradas podem ter-se quebrado. Mas nada apaga o passado que em comum temos. Nada nos fará esquecer os tenros anos em que, juntos, nos perdemos e encontrámos até já nada termos a perder. Nada nos fará esquecer os primeiros desgostos, o quebrar das fantasias, a dor de deixarmos ir quem um dia fomos. Nada nos fará esquecer o porquê de nos termos tornado em quem nos tornámos. Nada nos fará esquecer tudo o que, ou não, conquistámos.
Hoje, podemos parecer demasiado envolvidos em nós próprios para nos recordarmos dos tempos de companheirismo, de aventura, de bonança, por vezes de tempestade disfarçada. Hoje, podemos parecer demasiado distantes. Mas a nossa casa será sempre a nossa casa. E quem é, em parte, quem nós somos terá sempre parte de nós. E a nossa casa, a nossa infância, a nossa inocência, as nossas dúvidas, as nossas descobertas, o nosso crescimento serão sempre parte de quem somos. E nunca seremos velhos demais para corrermos, livres e felizes, como outrora fizemos. E os desejos que do topo das árvores inventámos estarão para sempre lá guardados. E os sonhos pertencer-nos-ão sempre a nós, que os sonhámos.
E os companheiros de antigamente vão comigo para onde eu vou. E a minha casa é sempre a minha casa, não importa onde estou.

 

 

[Inspirado em 'Castle On The Hill', de Ed Sheeran]

 

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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