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Inspiration Lab

Mundos

Vivia na agonia de lidar com a distância. Porque tudo o que ela alguma vez desejara encontrava-se a um passo de si, mas longe de mais. Porque quem ela mais neste mundo amava vivia num mundo diferente do seu.
A cada dia, ela enterrava-se mais profundamente na sua tristeza. A tristeza de não poder ter a seu lado quem mais queria. Afogava-se na sua incurável doença a grande velocidade. O seu sofrimento engolia-a, retirando-lhe toda a lucidez. No entanto, quando já a julgavam perdida, algo em si mudou. Talvez tenha sido todo o tempo que passou sentindo pena de si própria. Talvez as muitas lágrimas que derramara tivessem lavado algum do seu sofrimento. Talvez tenha sido uma réstia da obstinada pessoa que fora antes de se ter deixado afundar a manifestar-se.
Ela viu, então, que era ela quem construía os muros que a separavam da felicidade. Os muros que a separavam de si. Entendeu que a caminhada em busca de quem era começava quando os dias passados envolta nas suas inventadas desgraças terminassem.
Começou, então, a sua luta. Não julgava ser uma batalha fácil de travar, mas ela estava pronta. Iniciou a construção das pontes que ligavam o seu mundo ao de quem a completava. E quando a ponte estava finalmente edificada, atravessou-a, livre dos medos que outrora a teriam parado de prosseguir. E quando pôde olhar nos olhos de quem todos os seus males curava, abriu o seu coração, como nunca antes fizera. Porque antes o receio de ser mal interpretada, de ser julgada, de dizer de mais ou de nada de mais dizer tomavam conta de sim, mas agora já não. E quando finalmente pôde abrir a sua alma perante quem mais amava, compreendeu o verdadeiro sentido de si. Compreendeu o porquê de se ter reerguido quando a vontade de viver parecia tê-la abandonado. Compreendeu que não há apenas dois ou três mundos, mas sim tantos quanto pessoas existem neste mundo. Compreendeu que se esperarmos encontrar alguém que habite no nosso mundo para podermos ser felizes, então seremos eternos infelizes. Compreendeu que tudo o que temos que fazer é ter coragem para deitar mãos à obra e construir pontes entre o nosso mundo e o dos outros e, quiçá, fundi-los.
Hoje, os seus mundos são um só, e todos os dias ela abençoa aquele enevoado dia em que se livrou dos mantos de tristeza que a cobriam e decidiu dar uma oportunidade a quem ainda podia ser.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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