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Inspiration Lab

luminosidade natalícia

O bacalhau está na mesa, cortesia do inigualável talento para a cozinha da Dona Teresa. Já lhe sinto o cheiro. A sentar-me sou o primeiro. Incapaz de esperar, sou o primeiro a atacar a doçaria. Esperaria, se não estivesse tudo incrivelmente apetitoso. "João, não sejas tão guloso, ainda ficas doente, controla-te se logo à noite queres mais do que um saco de carvão."
Jogávamos, ríamos, cantávamos em frente à lareira. Nunca muito diferente, mas cada noite parecia a primeira. Tentávamos por tudo não adormecer. O Diogo não tardava a ceder. Dançava-lhe no rosto o fogo. A noite avançava, e em devaneios sobre o conteúdo do maior embrulho, do mais colorido deixava-me perder. Anseios de miúdo, sempre divertido, sempre em direção à próxima aventura a correr. Sinto o coração amolecer perante a tão intensa ternura desse menino que perdi ao crescer. Ao som da décima segunda badalada, despertava a criançada, tudo se aprontava para o mágico dar e receber. O que era já nem interessava, quem dera rapidamente iríamos esquecer. Íamos para a cama tarde demais, cansados mas sem qualquer dúvida na nossa sonhadora mente de que aquele fora o melhor dos Natais.
Nunca pensei um dia estar aqui, a dedicar toda a minha vontade, toda a minha energia desejando que esta outrora mágica noite rapidamente se desvaneça. Nunca refleti sobre o quanto quem somos viaja, sobre o quanto se afasta de onde começa. Mas a vida tem os seus termos e parece gostar de nos fazer abdicar do melhor que nós temos, se é concretizar os intensos sonhos que continuamos a cultivar que mais queremos. A vida obrigou-me a escolher e eu escolhi. Das minhas opções nunca me arrependi, mas há invernos para todos os verões. Estou então, por escolha própria, condenado a, em vez de estar ao seu lado, vê-lo todo entusiasmado, mostrando as novas aquisições através de um ecrã luminoso. Nunca um Natal foi tão doloroso.

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Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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