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Inspiration Lab

Espelhos

Esse que me mostra como o mundo me vê parece ser o único que revela, por muito que inúteis, certezas. Não sou nenhuma beleza. Mas sei como sou. Vi quando tudo mudou. Vivi e tudo mudou. Sei de cor cada linha, decorei cada traço, sei de mim todo o pedaço, desenharia sem precisar de ver o meu reflexo cada brilho deste só meu olhar. Mas eu não sou os meus olhos cansados. Não sou os meus cabelos encaracolados. Não sou o rosto pelo sol queimado. Não sou a vida que quem na minha vida faz reinado para mim sonhou. Eu não sei quem sou.
Seria tão fácil. No entanto, tão, mas tão complicado. Se, mesmo se só por um efémero bocado, pudesse olhar um espelho que, quando nele recebesse o meu olhar, não me olhasse também. Um espelho que não me mostrasse tudo o que qualquer pessoa, qualquer para mim ninguém, pode ver. Um espelho que essa tão insignificante parte de mim me fizesse esquecer. Um espelho que revelasse, sem me mentir, sem nada a esconder, defeitos esses meus e as virtudes que ao longo da vida tenho vindo a colher. Ver-me despida de escudos, ver meus disfarces mudos. Ver quem realmente sou e não quem tanto desejava ser. Ver, só ver. Saber, esse tão agridoce saber.
Eu não sou. Não sou quem fui quando nem sabia que era. Não sou quem fui quando de mim estava ainda à espera. Não sei quem sou nesta tão imensa e azul esfera. Eu não vou. Não vou mais aguardar por esse "eu" tão pouco meu que tanto demora a chegar. Se é que há algum eu para encontrar. Se é que devo um "eu" inventar. Se é que devo continuar mirando este lugar, procurando onde ficar. Procurando por onde existir. Tentando do que é tão difícil de enfrentar não fugir.
Eu não sei quem sou. Talvez a resposta esteja em mim bem profundamente escondida, por quem eu sou esquecida, julgada perdida. Talvez um dia me descubra quando já tiver desistido de batalhar nesta luta sem sentido de arranjar razões e rótulos para este meu tão desconcertado existir. Talvez não haja nada para descobrir. Talvez me caiba a mim, passo a passo, fôlego a fôlego, empenhar-me nesse "eu" que tão sofregamente procuro construir. Talvez só tenha que me deixar ir. Ir com o vento, apreciar o momento, sentir. Sentir.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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