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Inspiration Lab

fenómeno

Nunca compreendi verdadeiramente os jornalistas que ousam arrastar-se para o meio de uma guerra, enfrentando mil perigos, só para, eventualmente, tirarem uma fotografia capaz de emocionar toda a alma desta Terra. Nunca entendi os cientistas, que, só para observarem catástrofes mais de perto, põem à prova o seu corpo. De que vale ter descobertas publicadas em revistas se se está morto?
Eu podia ter nascido para ver as pirâmides e os faraós do Egito. Podia ter olhado Munch, dando vida a 'O Grito'. Podia ter visto naus e caravelas partir dos portos dos grandes países europeus em busca de um mundo absolutamente desconhecido. O quanto podia eu ter vivido. Podia ter conversado com os grandes génios, que punham a sede de conhecimento à frente da sua condenação iminente. As amizades que eu podia ter travado com tão ilustre gente. Podia ter assistido à declaração das maiores guerras da História. Podia ter sido o homem mais feliz de que há memória. Podia ter presenciado a grandiosidade desses tempos perfeitos, repletos de imperfeições que não me convém mencionar. Podia ter encontrado no passado o meu lugar. Mas não. Tal esperançoso devaneio não é mais que pura ilusão. Nasci num mundo em que, mesmo tendo a faca e o queijo na mão, optamos por nos esfaquear.
Entendo hoje que, talvez, esses eternos aventureiros não arrisquem o que de mais precioso possuem por um retrato ou por um qualquer pomposo documento. Talvez o façam pelo simples prazer de viver um tão delicioso momento.
Há muitas coisas que gostaria de ter vivido. Há muito ar que adoraria ter respirado, antes de este ter ficado pelos nossos erros poluído. Mas, de todos os fenómenos que alguma vez aconteceram neste mundo, tu és aquele que mais quero vivenciar. No meio da tempestade que és, encontro o meu seguro lugar. Tu és o tipo de pessoa que desperta nas outras uma inexplicável felicidade por terem a sorte de coexistir contigo. Uma vontade de serem para ti o que tu precisares, um ouvinte, um amor, um amigo. Quem quer que se cruze com o teu intenso olhar, a sorte bafeja. E se isso não é puro poder, então não sei que mais seja.

frio

Nós gostamos mais das pessoas frias. Desse tipo de gente que o calor da alegria não conduz. Ousa pensar diferente? Ora experimente. Tente ser para alguém uma luz, e veja quão depressa se funde. Tente guiar o caminho de alguém, e veja quão depressa se confunde. Tente pensar por alguém, e veja como é fácil perder a cabeça. Tente amar por alguém e veja quão pouco é o tempo necessário para que o seu coração, outrora saudável e ágil, pereça.
Nós gostamos mais das pessoas frias. Desse tipo de gente que leva o calor dos nossos dias. Não concorda que assim seja? Ora veja. Observe como quem o diabo beija nunca se chega a queimar. Observe como o fogo nunca as aleija, só as incita a continuar. Porque o gelo que lhes nasce do interior neutraliza qualquer ardor. Observe como quem o ar de outro alguém ousa retirar nunca perde o seu respirar.
Sangue que correr almeja é sangue que inveja, é alma que anseia pelo que não pode ter. E matar queremos quem ousa viver. Coração parado, por muito que morra odioso, impuro ou cansado é coração vitorioso, feliz e eternamente apaixonado. Nós gostamos mais das pessoas frias. Gente fria em todos os sentidos. Talvez por isso os mortos sejam tão mais amados que os vivos.

mentira

Diz no meu livro de História que, antigamente, os comboios se moviam a carvão. Os comboios costumavam ser muito importantes. As pessoas, com os seus chapéus altos, casacos compridos e vida a preto e branco pareciam sempre muito entusiasmadas, acenando para o fotógrafo ao entrar na carruagem. Eu nunca andei de comboio. Não tenham pena de mim. Eu gostava de experimentar uma vida a preto e branco. Gostava de sentir a alegria de receber uma carta, de ir aparar o bigode à barbearia. A minha vida está cheia de cores berrantes. São lindas, mas são demais. Porque quereria eu andar de comboio, se temos o carro, o avião, o foguetão, se daqui a uns anos talvez seja possível o teletransporte?
Nos filmes antigos, toda a gente fuma. Até as crianças, às vezes! E fumam em todo o lado, sempre. Antes as pessoas acreditavam que os cigarros eram milagrosos. Que curavam um monte de doenças. E fumavam. Hoje sabemos que não é, de todo assim. E ainda há quem fume. Mas esses sabem o que estão a fazer a si próprios de cada vez que levam o cigarro à boca. Então e antes? E quando as pessoas não faziam ideia dos malefícios do tabaco? Era essa ignorância salvaguarda contra infeções e cancro?
Suponho que o mundo seja movido a mentiras. Que a vida se mova a mentiras. E com o fim deste combustível não teremos de nos preocupar. Quando somos muito novos, muito ingénuos, ou ambos, ficamos surpreendidos com elas. Apanham-nos despercebidos. Mas depois entendemos que nos rodeiam, que estão em todo o lado. A mentira deixa de ser novidade. Torna-se apenas num meio de transporte, em algo que utilizamos para atingir um certo fim, para chegar a um dado ponto.
Dizem que o que não sabemos não nos pode magoar. Acredito que isso seja apenas uma desculpa que os omissores encontram, uma desculpa que lhes permite fechar os olhos à noite sem que lhes dancem à frente todas as coisas que deviam ter dito a quem nada disseram.
Então qual é a diferença? Onde é que se traça a linha? Entre a amizade e a desavença, entre a inquietude e a paz, que é tudo menos minha? Como é que distinguimos a mentira que leva o mundo para a frente e a que o desprestigia, tornando-o para muito pior diferente? Existirá distinção entre mentir por ódio, mentir por pena, mentir por amor?
Move para a frente o mundo o político, que nos grita pelos microfones, que nos faz promessas sem sentido, só para que não desistamos de trabalhar para lhe encher os bolsos? Move para a frente o mundo o médico, que diz ao seu paciente que melhora, só para que não perca a esperança de lutar por uma vida que de si foge? Move para a frente o mundo a mulher, que diz que não chegou a tempo ao jantar porque tinha muito que trabalhar?
Talvez todos nós puxemos para trás o mundo, tomando a mentira como hábito, fingindo-nos ludibriados por ela, como se não a soubéssemos de cor. Porque, no final do dia, todos sabemos que o político é corrupto, que o médico já desistiu de salvar aquela vida e que a mulher anda envolvida com o seu superior.

Alternativas

Às vezes deixo-me ficar. Não só mergulhar, mas deixar arrastar aqueles momentos em que sou infinito. Sentir-me parte de algo maior. Ter tudo em meu redor. Tudo tão cheio à minha volta e, mesmo assim, se me mover, o que me rodeia encontra outra maneira de me rodear. Quando me movo por ela, movo-me pelo mundo. Ela oferece resistência, mas dá-me tanta leveza quanto a que preciso para por ela poder viajar. Podia chegar assim à América, mas talvez não conseguisse aguentar. Acho que podia ficar para sempre nesse tipo de harmonia. Dentro dela não há noite, é calmo o dia. Às vezes descuido-me. Distraio-me com os encantos desse mundo tão bom, que não é meu. Sou demasiado humano para o sonhos que passo o dia a sonhar. Pesa-me o peito, começa-me o coração a martelar. Há que ascender, o meu corpo implora por ar.
É fácil amar um mundo desconhecido. Um mundo que só posso conhecer um minuto de cada vez. Difícil é voltar à rotina, olhar os mesmos olhares, sentir os mesmos ventos, cruzar os mesmos caminhos, e sentir que essa mesma firme terra que sempre se pisa ainda tem muito para nos dar. É por isso que gosto tanto de atingir a superfície. Naquele momento, ao recolher o ar que acalma o meu corpo em sofrimento, não é apenas nada que em mim entra. Ele tem cheiro, tem cor, tem sabor. É tudo o que preciso para ser alguém melhor. Nesse primeiro fôlego, o ar que me preenche é tudo de que necessito. É muito mais do que algo que se esquece, tão mais do que normal. É vital.
Às vezes tento, mas não consigo. Não sou capaz de me lembrar. Gostava de ter lá estado. Gostava de ainda lá estar, nesse momento em que esse fôlego foi mesmo o primeiro, depois de viver num outro mundo durante bem mais do que apenas um minuto. O ar deve ter parecido estranho. Pouco natural. Mas fresco. Limpo. Puro. Uma folha em branco sobre a qual tanta tinta viria a derramar. Mas os segundos passaram. Ainda passam. E tão rápido que passam. E esse sôfrego sorver fica perdido, soterrado, o primeiro em milhares, tão desvalorizados como esquecidos. E o ar vai ficando mais pesado, vai caindo sobre nós. Torna-se bafiento, saturado com as futilidades de um mundo que não reconhece a importância do respirar.
Eu sei que esse primeiro aspirar de vida foi bom. Teve que ser. Mas chorei, e voltaria a fazê-lo. Presumo que todos o façam, e não sei porquê. Perguntem-lhes, talvez vos saibam dizer. Eu chorei, e sei porquê. Esse alternativo mundo líquido é calmo. É pacífico. Mas não é silencioso. Suponho que não entendesse o que eles diziam, com todas as camadas que me separavam desse mundo real, que de real tem muito pouco. Suponho que fosse novo demais para entender, de qualquer maneira.
Porque não há líquidos, membranas ou tecidos, não há portas, música alta ou tampões para os ouvidos capazes de bloquear os sons do inferno que agora oiço e que devo ter ouvido a partir desse tão confortável lugar. Há sons universais, que nos dizem que nada está bem. Há sofrimentos que neste mundo não encontram iguais, como ouvir os gritos de uma desesperada mãe. E sei porque chorei. Porque saí de lá para aqui, tendo ouvido o que eu ouvi. Lá dentro não podia fazer nada, era só uma criança, uma obra longe de ser terminada. E agora eu não faço nada, sou só uma criança, e não posso ajudar a minha mãe. Eu queria ser corajoso, mas julgo que sou algo medroso, pois não quero que ele me bata também.

talvez

Rotina. Passo atrás de passo. Caminhando pela neblina. Sempre pé ante pé, pois o descuido é erro crasso. Vivendo essa vida de esperança, de cega fé num dia que a chegar tanto demora. Perdendo-me nesse delicioso agora. Captando alegria de momentos que nunca a ninguém trouxeram verdadeira felicidade. Não reparando na minha gritante ingenuidade. Deixando-me tomar por essa incontrolável vontade de ser mais. Por muito que não o admita, arrependo-me dessas tão irreverentes ações. Tão típicas de alguém tão carente, que não encontra esse amor de que tanto se fala nas canções.
Para ti, para toda a gente, está tudo bem com o mundo. Será que não há ninguém diferente capaz de parar para pensar por um segundo? Irrita-me essa tua calma perante a vida, essa serenidade perante inquietações minhas. Nas promessas ocas de paz e amor para toda e qualquer alma, parecia ser o único a ler nas entrelinhas.
Nessa tão doente Terra, serei eu a única mente a vislumbrar declarações de guerra nos sorrisos vazios de quem nada sente? Serei eu algum louco por querer experimentar mais um pouco, por ansiar ser diferente? O que tem de errado esta gente que consume rotinas sem sequer as questionar, que tem como sonho de vida dizer 'sim' num altar? Para que me serve um fato bonito e um bolo com camadas a mais, se no mundo onde vivo somos tão desiguais?
E ai de quem me vier dizer que na escola é que eu vou aprender a ser alguém melhor. São os doutores que mandam as bombas detonar, são eles que dão a ordem para matar. Não me venham com moralismos, por favor. Não se deixem enganar por um qualquer homem de fato, perito em falar com errada precisão de algo que é tão abstrato.
Desculpem se não sou perfeito, mas não me posso deixar ficar num mundo assim, admito andar à deriva, sim, mas não me vou conformar com um mundo de tal forma ruim, não o aceito. Podem gritar o que quiserem. Não vai adiantar. Nesta esfera está tudo errado, este globo não está bem e, se quero chegar a algum lado, por esse meu futuro alguém, tenho o dever de a curar.
Hoje de junto de ti me vou, vou tentar não me tornar em quem acabaste por ser. Por quem sou hoje vou lutar, por quem um dia foste vou vencer, ou a tentar hei-de morrer. E vou esforçar-me tanto, vou sangrar, vou chorar, vou tentar, vou correr. Quando me tentares ligar, eu não vou atender. Vou estar demasiado ocupado a recuperar este nosso mundo que foi desviado, um mundo em vias de se perder.
Talvez um dia passe para deixar um recado, dizendo que em todo lado me lembrei de ti. Talvez chore um bocado, ao reparar que grande parte da minha raiva esqueci.
Talvez um dia volte a tocar à campainha. Talvez um dia olhe em volta dessa casa que um dia foi minha. Talvez um dia compreenda que este mundo é o que dele decidimos ver. Talvez me torne no filho que sempre desejaste ter.

conselhos

Não foi preciso ser vidente para notar que tudo ficou diferente no momento em que se cruzou o vosso olhar. E eu podia viver só pelo contentamento de saber que tão bem sabes cuidar de quem um dia alguém ousou subestimar. Basta-me para me agarrar a esta Terra saber que por ela estás pronto para lutar, que por ela irias à guerra. É suficiente para que continue a respirar saber que estás ciente de tudo o que esta mulher é capaz de conquistar, se assim o quiser.
Então, de que estás à espera? O infortúnio impera neste planeta esfera e não te podes arriscar a perder quem tão bem te completa. Então, faz ao mundo um favor gigante. Consolida o vosso amor. Leva o joelho ao chão. Mostra-lhe o diamante. Pede-lhe a mão. Promete-lhe que é para a vida. Para o que vier e for. E vai. Vai com ela por aí fora. Vai e vai agora. A vida parece recompensar os aventureiros, esses de ar puro herdeiros, e só perdes pela demora.
Faz dela o que ela fez de quem eu era. Não a deixes à espera que alguém o faça por ti. Não partas de junto dela como eu parti.

Tu

Encontrei em ti o que nunca pensei encontrar em ninguém. És só tu no meu olhar, é teu todo o meu segundo neste mundo, meu bem. E nunca penses que ficas aquém de quem eu podia ter. Acredita que, dos 7 mil milhões, escolhia-te a ti para comigo crescer. Não precisamos de aviões para irmos juntos até onde nos apetecer. Se amor é lotaria, então somos totalistas. A partir do momento em que te conheci, perderam valor as histórias nas revistas. Se o nosso amor é engano, quero viver nesta alternativa realidade, ser feliz contigo todos os dias do ano.

Amor deste não se compra, não se finge, não se inventa, só se encontra. Promete-me que é até para lá dos noventa. Até precisarmos de ter cuidado para o nosso sorriso não cair. E, até aí, sei que passarei o melhor dos bocados, só a ver-te rir.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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