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Inspiration Lab

Inferno

Ó Inferno, como és quente. O quanto dói o teu calor. Envolve-me com tua chama ardente. Consome-me com o teu fulgor.

Ó Inferno, o quanto me mói estar assim tão dormente. O amanhã que hoje se constrói é para mim tão indiferente.

Ó Inferno, agarra-me à vida. Quão nova sou para estar já perdida.

Ó Inferno, concede-me a morte. Permite-me ganhar, ao perder. Talvez no teu gélido ardor tenha a sorte de encontrar o amor por viver. 

Ó Inferno, faz-me sentir o mundo que de mim tem vindo a fugir.

Ó Inferno, chega-te a mim. Podes fazer de tua casa o meu corpo em brasa. Podes ensinar-me porque tem de ser assim. 

Ó Inferno, fujo de ti. Corro para a vida que um dia tive e que ainda não esqueci.

O blog já anda

Aqui me sento, para tentar resumir os dois anos deste cantinho, em jeito de comemoração. Na verdade, ironicamente, faltam-me as palavras. Suponho que abri este laboratório de inspiração porque ansiava por algo mais. Queria ouvir e ser ouvida. Enquanto escrevia os primeiros posts por cá, a escrita propriamente dita, como hoje a vejo, era algo ainda desconhecido para mim. Fui crescendo e descobrindo mais sobre quem sou. Ao longo destes dois anos, foi grande a minha evolução, e orgulho-me por ver onde cheguei. Não meço o meu sucesso em seguidores, gostos ou comentários até porque, se o fizesse, duvido que me fosse sentir muito orgulhosa. Sinto-me vitoriosa porque, a cada dia que passa, as linhas que escrevo neste blog têm cada vez mais a ver comigo e porque eu tenho cada vez mais em comum com quem desejo ser. Num breve olhar, em rápida retrospetiva, vejo o longo caminho que percorri. Hoje atinjo um marco, é dia de pensar em tudo o que já alcancei. Mas amanhã é um novo dia, e só penso no quanto eu quero melhorar, e em tudo aquilo que desejo ainda fazer. Sinto que pus este blog a andar, mas este ano quero dar-lhe asas. Quero que fazer este blog voar. Obrigada a quem se mantém desse lado. Obrigada a quem não desiste de me acompanhar. 

vai

Não deixes para amanhã o amor que hoje pode ser declarado. Não permitas que o teu amor seja pela tua insegurança negligenciado. Reanima esse teu há tanto tão desanimado ânimo. Não a deixes ir. Porque o momento perfeito (se é que existe tal coisa) não se vai repetir. Não deixes que as palavras que tanto queres proferir se percam nos teus devaneios, nesses teus infinitos anseios que sempre te impedem de prosseguir. E se ela quiser ir, que seja porque quer e não porque nunca soube o que sempre quiseste. Dá-lhe asas para voar, razões para ficar, um porto seguro no teu tão belo olhar. Fá-la sonhar. Deixa que ela veja a vida através desses tão profundos olhos teus. Dá-lhe o mundo no teu abraço, conforto no teu regaço, infinito em quem és. Vai. Chega de inseguranças, de de falsas pintadas esperanças, já é tempo de agir. Vai. Se não a queres ver partir. Vai. Mesmo com medo, mesmo receoso, mesmo sem certezas, vai. Porque a vida só é curta demais para quem a desperdiça esquecendo o muito que tem e receando por tudo o que pode acontecer se na sua tão curta vida sair a perder. Vai. Não te deixes esperar. Vai. Está na hora de amar.

luminosidade natalícia

O bacalhau está na mesa, cortesia do inigualável talento para a cozinha da Dona Teresa. Já lhe sinto o cheiro. A sentar-me sou o primeiro. Incapaz de esperar, sou o primeiro a atacar a doçaria. Esperaria, se não estivesse tudo incrivelmente apetitoso. "João, não sejas tão guloso, ainda ficas doente, controla-te se logo à noite queres mais do que um saco de carvão."
Jogávamos, ríamos, cantávamos em frente à lareira. Nunca muito diferente, mas cada noite parecia a primeira. Tentávamos por tudo não adormecer. O Diogo não tardava a ceder. Dançava-lhe no rosto o fogo. A noite avançava, e em devaneios sobre o conteúdo do maior embrulho, do mais colorido deixava-me perder. Anseios de miúdo, sempre divertido, sempre em direção à próxima aventura a correr. Sinto o coração amolecer perante a tão intensa ternura desse menino que perdi ao crescer. Ao som da décima segunda badalada, despertava a criançada, tudo se aprontava para o mágico dar e receber. O que era já nem interessava, quem dera rapidamente iríamos esquecer. Íamos para a cama tarde demais, cansados mas sem qualquer dúvida na nossa sonhadora mente de que aquele fora o melhor dos Natais.
Nunca pensei um dia estar aqui, a dedicar toda a minha vontade, toda a minha energia desejando que esta outrora mágica noite rapidamente se desvaneça. Nunca refleti sobre o quanto quem somos viaja, sobre o quanto se afasta de onde começa. Mas a vida tem os seus termos e parece gostar de nos fazer abdicar do melhor que nós temos, se é concretizar os intensos sonhos que continuamos a cultivar que mais queremos. A vida obrigou-me a escolher e eu escolhi. Das minhas opções nunca me arrependi, mas há invernos para todos os verões. Estou então, por escolha própria, condenado a, em vez de estar ao seu lado, vê-lo todo entusiasmado, mostrando as novas aquisições através de um ecrã luminoso. Nunca um Natal foi tão doloroso.

ilha

Todos os dias, náufragos davam à costa, mas os seus pedidos desesperados ficavam sem resposta. Deixava-os mergulhados num mar de incertezas sem oferecer o meu conforto. Acolhia, por vezes, inigualáveis belezas, oferecia-lhes (só por momentos) a mão, mas por nada mais que pelo desporto, pela alegria de sentir que ainda era eu que por último ria.
Eu era uma ilha, e era para mim pequena a vastidão dos oceanos. Eu era uma ilha de eterno verão, embelezada pelos galopantes anos.
Deixaram de aparecer. Lentamente, o eco de vozes em torno de mim começou a esmorecer. Desconhecia silêncio assim. Intriguei-me até me esquecer. Importei-me até não querer saber.
Porque eu era uma ilha, e havia tanto em mim ainda por explorar. Qual era o espanto por encontrar o melhor refúgio em quem era? Qual era o jeito de ficar eternamente à espera, vendo passar a vida? Não é como se estivesse ao meio partida, para que alguém me pudesse completar.
Comecei a sentir saudades do barulho de fundo de que sempre me queixava. Comecei a invejar essa gente que pelo mundo andava. Esses náufragos que, de porto em porto, buscavam algum conforto. Esses náufragos que não tinham medo de o ser. Esses que nada tinham a perder. Que expunham as suas fraquezas ao mundo, na esperança de que alguém fosse generoso o suficiente para os acolher.
Eu era terra segura, e segura estava a ser. Eu era terra firme, sem riscos a correr. Eu era a desventura de uma vida passada a admirar aqueles que não receavam viver.
Eu era uma ilha, num mundo onde ninguém sabia nadar. Aviões não existiam. Desconheciam a arte de navegar. Estava bem no meu lugar. Não me prendia por ninguém, não me deixava encantar. Estava tudo bem. Até deixar de estar.

males

Eu era a luz que o sol irradia. Era em mim a alegria uma constante. Eu, que nem sequer via que sentir assim todo o dia é em bruto diamante. Era tão superior a esse contra a própria mente rancor que nem sabia que existia. E tomava por certo o meu acordar. A paz estava sempre tão perto, era tão fácil de alcançar. Alcançá-la tê-lo-ia, se não fosse este meu aperto de tudo querer controlar.
Caiu sobre mim um negro manto. Instalou-se em mim permanente pranto. Era gigante o meu medo do fim. Não guardaria, mas guardei segredo. Se ao menos eu pudesse voltar atrás, não o faria assim.
Acho que não quis que ninguém se afogasse nas lágrimas que vertia. E tanto eu rezei para que o tempo levasse o quanto eu sofria. Mas o tempo não apaga o que se marca no coração. Ou talvez o tempo não tenha querido ouvir a minha oração. Recusei-me, no entanto, a tornar minha essa triste canção. De armas em riste, combati essa sufocante emoção. Mas não fui longe sozinha. Como é que uma luta só minha podia ser tão difícil de travar? Será que valia a pena continuar?
Partilhei a minha dor, a minha angústia, o meu temor. Mas o mundo não me quis entender. Estava demasiado ocupado a tratar dos males que se podem ver. No desespero de querer ser ouvida, entre o medo de ser esquecida, deixei-me perder.
Se também eu sou importante, porque é que ninguém me parece querer ajudar a recuperar esse meu diamante, o meu mais precioso bem?

purificação

Eu sei que a tempestade vai chegar. Sei que quando o sol nascer tu vais estar cá para me fazer sofrer. Vejo as nuvens que ao longe se formam. Pressinto os trovões que a soar não tardam. E só consigo pensar em ti. Já me esqueci da razão pela qual fugi. Tudo o que sei é que quero mergulhar nesses profundos olhos que me fazem viajar, que me levam a conhecer mundos que nunca sonhei encontrar. Quero-me entregar a esse sorriso por que me apaixonei. Quero regressar aos tempos de paraíso antes de ter começado a pensar que, se este constante medo é amor, então amar eu não sei.
Delicado, mas nunca em demasia. Interessado, mas quiçá cativado por outra qualquer maior magia. Cavalheiro, mas não a tempo inteiro. Misterioso. Segredos ocultados pelo eterno estado jocoso. Fascinei-me por essa tão dele procura pelo que não podia ter. Encantei-me, e em torno dele passei a viver. Nada mais importava quando, mais intensamente do que nunca, amava. Aquele amor era diferente e, se o meu estava sempre presente, eram imensas as vezes em que o dele se ausentava. Era difícil não me questionar se não me estava a dedicar a uma relação em que, demasiadas vezes, era a única disposta a amar. Difícil, mas não impossível. Não queria fazer perguntas que me levassem para longe da razão do meu respirar. Não conseguia imaginar destino mais terrível.
Não sei o que mais me magoou. Se foi senti-lo culpar-me por todo o mal que na vida lhe corria. Se foi reparar no monstro em que, da noite para o dia, se tornou. De intensamente apaixonado, a incrivelmente distante. De fiel namorado, a causador de sofrimento constante.
Ao longe, oiço o ribombar de um trovão. Sinto o medo, o agitar do meu coração. Cai a primeira gota sobre o meu colo. De raiva estremece o solo. Assobia o vento. É de tão forma violento, que nem te oiço chegar. Nem oiço a porta a bater. Para meu espanto, não corro para te abraçar. É a minha vez de viver. Está na hora de me escolher.

Quem sabe, sabe #1

JS.png

 Decidi deixar por cá uma montagem que fiz, que inclui algumas das minhas citações favoritas de José Saramago. Há alguma frase deste senhor que vos tenha marcado especialmente?

 

Número Um

Todos os dias, era connosco que te reunias, em torno da tua tão esmerada refeição. Não era vasta mas, como sempre dizias "É quanto basta e o que conta é a intenção". Conversa de conveniência. As aulas, o tempo, o trabalho. Conversa de quem esconde o que perturba a sua essência. Não se falava de problemas à frente do pirralho. Mas eu ouvia. Eu sabia. Só discutiam quando pensavam que eu já dormia, e era aí que eu escutava. Queria saber o que se passava. Queria saber qual a razão para tanta discussão, para tão tenso murmurar. Queria tanto ajudar.
Um novo dia. Estava sentado na minha secretária, mas do livro nada via. Olhos fixos no quadro, mas tão depressa me perdia. Os professores reclamavam, insistiam, gritavam, mas nunca quis saber da escola. Para quê pensar em equações quando, no meu pensamento, podia estar a viver o meu momento, a experimentar a melhor das emoções, só eu, o campo e uma bola?
Chegava cedo. Os outros deixavam-se ficar. Quando pisavam o relvado, já estava eu todo suado de tanto treinar. Deixava-os olhar. Deixava-os falar. Não me importava com o que de mim pensavam, não era isso que me faria perder, não era isso que me ajudaria a ganhar.
Acabava o treino. Era aí que toda a gente para a sua família regressava. Mas eu não tinha para quem voltar. Ele sabe-se lá por onde andava e o teu segundo turno estava ainda a começar. Então eu ficava. Tentava. Treinava. Aperfeiçoava os erros que me levavam a falhar. Eu queria tanto aquilo. Ninguém podia sequer imaginar. Era aquele o meu asilo. Entre as quatro linhas encontrara o meu lugar.
Quando a noite já reinava, quando já nem conseguia ver a baliza para a qual rematava, acabava por me fazer ao caminho. Ainda ia na estrada, mas já via a luz da tua presença, da tua comida já sentia o inconfundível cheirinho.
Cansado, deixava-me cair na cama e aguardava pelo silêncio tenso que quem tantas noites como aquela viveu não engana. Tardava, mas eventualmente lá começava, aquele abafado discutir. E eu, quieto e calado, a ouvir. Era o dinheiro, era a bebida, estava tão cara a vida, e este mês ainda custava mais. Se ao menos ele colaborasse, se fizesse, se ajudasse, mas não o fazia, afinal os homens são todos iguais.
Um dia, alguém me via enquanto corria. Tive uma oportunidade. Inédita para alguém da minha idade. Era o tudo ou o nada. Estava na hora de me fazer à estrada. Fui para longe viver. São ossos do ofício. É preciso sacrifício se se quer vencer. Choraste tanto. Foi tão complicado. Queria acalmar esse teu pranto. Ficar contigo mais um bocado. Mas a vida não espera por quem fica a vê-la passar. Esta era a minha chance, e tinha de a agarrar.
Disseram-me que como eu não havia mais. Então porque é que naquele lugar parecíamos todos iguais? Todos com o mesmo desejo. Tão poucos chegariam onde queriam chegar. Mas eu não ia desistir do meu sonho, agora que dele já tivera um lampejo. Era agora ou nunca, e eu não me ia deixar ultrapassar.
Hoje sou quem sou porque um dia fui um menino que muito sonhou. Um menino só teu. Um menino que muito perdeu. Um homem que tudo ganhou. Mesmo tendo mais do que alguma vez tinha imaginado, mantenho esse menino a meu lado. Deixo-o coordenar o bater do meu coração. Deixo-o constantemente avivar a minha ambição. Deixo-o orgulhar por te ter conseguido dar tudo aquilo que tanto mereces. Deixo-o festejar por os céus terem ouvido as tuas preces.
De botas rotas e joelho esfolado a incontáveis carros e motas, a homem desejado. Eu, título principal. Eu, que na falta de melhor, dava pontapés numa bola de jornal. Eu, estrela internacional. E tudo devido a quem sempre em mim acreditou. Tudo devido a quem sempre por mim trabalhou. Tudo por quem nunca, por um efémero segundo, de mim duvidou. Tudo por quem comigo sonhou. Eu, que não era ninguém. Obrigado, minha mãe.

invisível

Descobri quem verdadeiramente era no lugar onde toda a gente desespera para enterrar que um dia foi. Construí a minha vida como sólido monumento, afastei-me da corrida de quem procurava o seu alento. Fiz de mim a minha tela, fugindo de quem, na luz, resumia a sua obra a frágil aguarela.
Rodeada pelo nada, tornei minha a vida por mim tão afincadamente imaginada. Comi pedra, para mim pão, senti no vazio o toque dessa por mim tão desejada mão. Brinquei nas poças, praias de mar, convenci-me a por ali ficar. Respirei o fogo, transformando-o em ar, enterrei os meus pés no lodo, acreditando que em areia se havia de tornar. Vi um amigo num penedo, da solidão venci o medo, acabei por me encontrar.
Mas, um dia, um raio de luminosidade interrompeu essa minha tão real fantasia. E reencontrei-me com esse meu passado mundo, regressei por curiosidade. Devia ter sabido voltar para esse lugar que, sem nada perguntar, me tomou como seu protegido. Mas era tão longínquo esse momento em que, por procurar tanto sentimento, deixei de sentir. Estava tão longe essa altura em que, farta dessa permanente penúria, decidi fugir.
Era tão brilhante, este tudo! De mim estava o céu diante, de mim, eu que me julgava eterna habitante desse tão negro submundo! Mas esqueci a existência da palavra 'suficiente'. Estava tão diferente. Perdi quem fora antes. Se tinha ouro, desejava diamantes. Se tinha alegria, ansiava pela euforia. Podia drenar todas as fontes deste mundo, que continuaria a sentir esta incontrolável sede. Tornei-me em mais um detestável exemplar dessa espécie cuja ânsia de ter demais de ser feliz a impede.
Agora, volto para a sagrada companhia dessa tão profunda noite que me deu a conhecer a vida como tanto queria, essa noite que me mostrou o dia. Agora, volto para viver nessa invisível magia. Agora, regresso a esse vazio abençoado que me deu tudo o que por essa maldita luz me foi retirado. Porque prefiro moldar quem sou no nada, como muito valorizado, do que eternamente divagar por um mundo tão mal amado.

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Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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