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Inspiration Lab

fragmentos

Sempre a invejei, desde que descobri que tinha a capacidade de sentimento tal nutrir. Invejo essa sua forma de existir. De não questionar para onde vai, nem de onde vem. De, onde quer que esteja, estar bem. Eu, com esta minha inquietude. Ela, com sua calma virtude. Eu, eternamente inconformada. Ela, com constante paz abençoada.
Às vezes pergunto-me se como ela também serei. Se sou fragmento de um todo tão grande que mal o consigo imaginar, que se divide em muitos outros todos, demasiados para que os possa contar. Se também eu regressarei ao local de onde fugi. Se voltarei a chamar casa ao sítio de onde parti. Se sou nada mais do que de um todo um fragmento, se estou só de passagem por este momento, se noutro gigante todo me tornarei.
Os meus pés deixam-se rodear por milimétricos resquícios daquilo que um dia imponente e grande foi. Sinto-os escorregar entre os meus dedos, dessa forma tão decidida, tão certeira. Vejo-os assentar nessa sua tão suave maneira. Firmes. Insistentes em por ali ficar. De mim tão diferentes, eu que tenho os pés na terra e o coração em alto mar.

liberdade aprisionada

Onda após onda, resultado do desse tão aclamado criador esforçado esmero. Onda após onda, espero que o mar me consiga livrar deste meu desespero. Onda após onda, espero que o mar, tão livre, tão seu, me consiga perdoar por ser aquela que deixou a sua liberdade voar. Por ter transformado algo que só a mim pertencia, algo que um dia fora meu, em coisa tua. Por não ter compreendido que, por certeira razão, de correta maneira, por muito que entre ambos exista inegável atração, por muito que deseje mais dela ter, por muito que continue a por ela viver, o mar mantém segura distância da lua.
Que sou eu senão uma tentativa falhada, uma aprendiz apaixonada, que esqueceu a sua lição? Que estou eu senão tremendamente errada ao escolher seguir o meu coração? Que estou eu senão desesperada, ao pedir o teu perdão?

remorso

Descobri que te queria eternamente, até já não ser gente, num dia de verão. Dormias ao meu lado, tão pequena, tão serena, e aí eu soube que não havia neste globo mais feliz e sortudo namorado. Peguei na tua mão adormecida e, fitando esse teu rosto sonhador, jurei que era para toda a vida, jurei que era com todo o meu amor.
Marido e mulher, para o que der e vier, prometemos. Mais intensamente do que alguma vez fizéramos, vivemos. Para sempre, jurámos. E, afincadamente, as batalhas que se desenrolavam à nossa frente lutámos. Matámos dragões. Partimos em foguetões. Fizemos o impossível. Demos cor a este mundo, por vezes tão cruel, tão pouco misericordioso, tão terrível. Era para ti que vivia. Era teu todo o meu dia. Estava longe de mim quando de ti estava afastado. Minha esperança, meu futuro, minha bonança, meu presente, minha aliança, meu passado.
Mas o mundo gira tão depressa, acho que me deu a volta à cabeça. E, de repente, desse jeito que a vida tem para ludibriar a mais absorta gente, olhava para ti, mas já não te via. Não sei como, mas esqueci que tínhamos sido um só, um dia. Deixei que tanto passasse por nós, momento após momento. Deixei que morresse em mim esse outrora tão intenso sentimento. Deixei-te ir, mas tu ficaste. Quis partir, mas não deixaste. Aguentaste todo esse desgaste de amar também por quem se esqueceu de sentir. Amaste.
Que angústia que me quebra, que remorso que me parte, que sôfrega necessidade de, mais do que nunca, amar-te. Que dor por saber que a ganância por depressa viver levou esse que um dia me orgulhei de ser para longe. Que raiva por não ter desculpa, por ser tudo minha culpa, por não poder acusar, hábito esse que já tinha, o tempo, o trabalho, a pressa, a minha em direção a algo mais subida, a má sorte. Se nem consegui tomar conta de ti em vida, como irei amparar-te nos negros e solitários corredores da morte?
Agora, aperto a mão que não me sente e imploro para que não te vás embora. Toco o rosto que não sorri e juro que não é tarde de mais, que ainda posso ser melhor por ti. Sinto em meu redor essa tal de divindade de que todos falam mas que, até este instante, fora sempre, para mim, algo sem valor, e peço-lhe que não leve este meu tão subvalorizado diamante. Rogo-lhe que poupe a mais pura e bela alma que alguma vez conheci. Brado que não te leve daqui.

História

Um joelho esfolado. Uma discussão acesa. O primeiro namorado. Rabiscos na mesa. Recados às escondidas. Genuínas gargalhadas. Brincadeiras com as amigas. Lágrimas à socapa choradas. Perdida. Baralhada. Esquecida. Reencontrada.
O medo da só independência. Os perigos dessa tão bem mascarada maturidade. A minha assustadoramente insuficiente curta vivência. O receio dessa não tão tenra assim idade.
Tudo o que fui já não é mais quem sou. Tudo o que sei é que quem fui sonhou. Será que sonhou com quem sou? Será que quem fui desiludi? Será que pelos caminhos dos eternos divagantes me perdi?
O meu mundo já não é mais meu. Nele habitam as memórias de quem em si se perdeu. Aquele que um dia me pertenceu é agora casa para os eternos resquícios de quem a forma que hoje a minha alma toma me deu.
Sem que tal desejasse, tornei-me grande demais para as paredes que outrora me continham. Sedenta de liberdade, parti. Esqueci-me, no entanto, que sair do lugar onde não pertencia não me dava garantia de a local algum pertencer. Esqueci-me que, para ganhar, temos de estar dispostos a perder. Tornei-me grande, mas esqueci-me de crescer. Lutei tanto, mas esqueci-me de viver.
Resta-me, então, procurar um lugar onde possa plantar as vivências que um dia ocuparão a minha memória. Resta-me esperar que um dia me venha a orgulhar desta tão minha história.

Zangada

Eu sou tão amada, tão sortuda, tão feliz, e eu estou tão zangada por tanta gente neste mundo não ser amada, sortuda ou feliz, e estou tão zangada por eles nem sequer poderem estar zangados, pois nem sabem que podiam ter melhor.

Vazio

Falo para o vazio, na ânsia que a minha voz reverbere pelo nada e chegue até ti. Na dor provocada por esta intolerável distância, mantenho-me acordada para quem para o mundo adormeceu. Mas não para mim. Para mim, ainda estás aqui.
Pouco é o que te posso prometer. Tenho tentado viver. É coisa complicada, esta de já não ver o mundo pelos teus olhos. É coisa difícil, esta de ver solitários estes meus outrora partilhados sonhos.
Tenho vivido como único cada dia. Tenho tomado como minha esta fantasia de ainda aqui estares. Tenho procurado por vestígios de ti em todos os lugares.
Se me ouvires, deixa-me saber que olhas por mim. Deita-te ao meu lado, deixa-te ficar um bocado, traz-me a calma que de mim tanto foge. Assim.

a esperança

Uma esperança tão pequena como a existência de quem ma dava. Uma esperança efémera que, no entanto, me agarrava. Uma esperança sem nome, sem corpo, sem força, sem idade. Uma esperança sem inveja, sem cobiça, sem maldade. Uma esperança pela qual há tanto aguardava. A esperança que me salvava.
Como não recear, porém, pelo apagar daquela tão ténue luz que tão celeremente se tornara na razão para o meu respirar? Como não temer não conseguir proteger quem agora era a razão do meu ser? Como não a perder?
Como é que o nada pode ser tudo? Como é que o pouco pode significar tanto? Como é que quem ainda mal existe pode já ser contra os males da vida para mim um escudo? Como é que tão facilmente me rendi a uma silhueta a preto e branco? Uma silhueta que cresce, correndo em direção a quem um dia se há de tornar. Uma silhueta que cresce, aguardando pela cor que a vida lhe irá dar.

eletricidade

É eletricidade. É força elétrica que me incendeia, que me percorre as veias, que me mata por tanto a desejar. É a energia que um dia me há-de matar.
É escuridão. É bruma que me apaixona, a mim, uma incondicional amante do radiante sol, da luz estonteante, da claridade sem igual.
É magnetismo. É pura atração entre quem sou e quem detesto, tanto o amando, no entanto. Como pode algo que não pertence ao meu futuro ser tão presente, estar tão presente?
É amor pelo que agora a mim se entrega, mas que nunca vou ter. É paixão por quem poderia ser.
É dança. É a linguagem da crítica, da saudade, da raiva, da liberdade, da esperança.
É arte. Quanta vida a ti te quero, o quanto desejo matar-te.

Cinza

Era só mais uma colhendo tão doce fruto da minha tão tenra idade. Era só mais uma que dentro de si se encarcerava, em busca da liberdade. Era só mais alguém cujos sonhos voavam mais além. Mas estava destinado que o meu pensar não conseguiria ultrapassar a inacreditável força que tinha o meu mentiroso acreditar. E, de tanto sonhar com grandes voos, nem por mim dei quando até mais alto do que os limites meus voei. E abri mão de tudo o que, até ali, fora verdade, para me entregar à confusão e ansiedade. Ansiedade que me acolheu e envolveu nos seus braços, alimentando-se do desespero meu. Desespero que me levou, sim, levou essa que tanto sonhou, a para o estrelado e esperançoso céu deixar de olhar. Tão sonhadora, tão corajosa, tão frágil, tão medrosa, a menina que tudo podia de tudo desistiu.
E, agora, o ensurdecedor ruído da maquinaria que me rodeia quase cala o meu divagar. Mas, por muito que a (quase) tudo alheia, não consigo deixar de pensar. O que de mim seria se tivesse posto travão ao meu duvidoso acreditar? E, agora, as minhas mãos enegrecidas pelo carvão já esqueceram as cartas de amor que com tanto carinho escreveram, quando tudo o que eu tanto compliquei era ainda tão simples. E quando, agora, os meus olhos já cansados contemplam aquele que a minha imagem reflete, vejo ainda a menina que um dia fui, tão igual, mas tão, tão diferente. E quando, agora, as minhas já débeis pernas percorrem os melancólicos corredores de monstros metálicos ladeados, de tristes tons de cinza banhados, onde tantos sonhos nasceram e outros tantos foram despedaçados, é fácil imaginar como seria o meu viver se tão depressa eu não tivesse querido crescer. Quão ligeiro seria o meu andar se tão difícil vida não me tivesse levado a escolher? E, nas raras vezes em que o meu pensamento foge para longe de tão rotineiro e forçoso trabalho meu, dou por mim a pensar se há quem, como eu, tenha o azar de receber a vida que escolheu.
Quanto não dava eu para reverter a contagem do tempo e, nem que fosse por um só momento, para o colo de quem fugi voltar? Quanto não dava eu para ser mais do que a eterna menina, que tarde de mais se arrependeu? O quanto eu desejava regressar àquela madrugada em que, pela vez derradeira, transpus a porta do meu tão doce lar! E travar essa menina, tão bela, tão inocente, tão fingida, tão carente de à eterna desgraça se condenar. E convencê-la a regressar. Regressar a sua casa, acalmar seu coração em brasa e pelo momento certo para descolar esperar.
Mas o tempo não perdoa, sou menina que já não voa e sobre leite derramado não adianta chorar. O meu mal está feito, pela vida perdi todo o respeito, e por isso meu destino é esse mal pagar. Mas tu és tão jovem, tão menina, e tens um longo caminho para andar. Ainda há tanto para fazer, tanto para viver, tantas razões para as tuas armas continuares a segurar. Luta, vive, escuta, vê, sente, mas sê prudente.
O meu mal não foi sonhar. O meu mal foi, sim, no que não existia acreditar. Foi colocar tudo o que era nas mãos de quem de mim não soube cuidar. Foi ter-me esquecido dos meus sonhos para abraçar aqueles que pertenciam a quem mais tarde só me iria deixar. Foi parar de por mim pensar. Foi deixar de sonhar.

Espelhos

Esse que me mostra como o mundo me vê parece ser o único que revela, por muito que inúteis, certezas. Não sou nenhuma beleza. Mas sei como sou. Vi quando tudo mudou. Vivi e tudo mudou. Sei de cor cada linha, decorei cada traço, sei de mim todo o pedaço, desenharia sem precisar de ver o meu reflexo cada brilho deste só meu olhar. Mas eu não sou os meus olhos cansados. Não sou os meus cabelos encaracolados. Não sou o rosto pelo sol queimado. Não sou a vida que quem na minha vida faz reinado para mim sonhou. Eu não sei quem sou.
Seria tão fácil. No entanto, tão, mas tão complicado. Se, mesmo se só por um efémero bocado, pudesse olhar um espelho que, quando nele recebesse o meu olhar, não me olhasse também. Um espelho que não me mostrasse tudo o que qualquer pessoa, qualquer para mim ninguém, pode ver. Um espelho que essa tão insignificante parte de mim me fizesse esquecer. Um espelho que revelasse, sem me mentir, sem nada a esconder, defeitos esses meus e as virtudes que ao longo da vida tenho vindo a colher. Ver-me despida de escudos, ver meus disfarces mudos. Ver quem realmente sou e não quem tanto desejava ser. Ver, só ver. Saber, esse tão agridoce saber.
Eu não sou. Não sou quem fui quando nem sabia que era. Não sou quem fui quando de mim estava ainda à espera. Não sei quem sou nesta tão imensa e azul esfera. Eu não vou. Não vou mais aguardar por esse "eu" tão pouco meu que tanto demora a chegar. Se é que há algum eu para encontrar. Se é que devo um "eu" inventar. Se é que devo continuar mirando este lugar, procurando onde ficar. Procurando por onde existir. Tentando do que é tão difícil de enfrentar não fugir.
Eu não sei quem sou. Talvez a resposta esteja em mim bem profundamente escondida, por quem eu sou esquecida, julgada perdida. Talvez um dia me descubra quando já tiver desistido de batalhar nesta luta sem sentido de arranjar razões e rótulos para este meu tão desconcertado existir. Talvez não haja nada para descobrir. Talvez me caiba a mim, passo a passo, fôlego a fôlego, empenhar-me nesse "eu" que tão sofregamente procuro construir. Talvez só tenha que me deixar ir. Ir com o vento, apreciar o momento, sentir. Sentir.

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Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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