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Inspiration Lab

O fundo do poço

Já estive lá. Na terra do ruidoso silêncio. Na terra de tudo. Na terra de nada. Na terra onde impera a solidão. Na terra cinzenta. Na terra fria. Na terra onde não há lugar para a felicidade. Na terra onde os sonhos morrem por negligência de quem os sonhou. Na terra das lágrimas proibidas. Na terra das alegrias esquecidas. Na terra das lamurias silenciosas. Na terra dos morosos esquecimentos. Na terra onde o perdão é desconhecido. Na terra onde os vivos estão mortos. Na terra dos mal iluminados. Na terra dos desgastados.
Já estive lá. No local onde se encontram aqueles que caíram e não têm força para se levantar. No local onde os mal amados se recusam a amar. No local onde estão os que em si deixaram de acreditar. No local aonde pertencem aqueles que desistiram da vida antes de ela desistir de si. No local para todos aqueles que desvalorizam o momento. No local onde se refugiam aqueles que se escondem do sentimento.
Já estive lá. Não queiras lá estar. Já fui ao fundo do poço. Não te deixes lá chegar.

Se desejamos renascer.

Pode tornar-se um pouco assustador pensar que todos os dias uma pequena parte de nós morre. Todos os dias, uma pequena parte do nosso ser perde-se para sempre. Todos os dias dizemos um definitivo adeus a algo que outrora fez parte de nós.
Confrontados com esta realidade, há os que a aceitam. Há os que entendem que na maioria das vezes esta perda tem um fim positivo. Há os que estão dispostos a abrir mão de um pouco de si. Há os que abrem portas para que novas partes apareçam e os constituam, tornando-os pessoas melhores. São esses os que se renovam. Os que se perdoam. Os que se reencontram com a felicidade.
Mas há também os que ficam assoberbados por esta ideia. Os que não conseguem ver a parte positiva nesta perda. Os que não entendem que há partes de nós com as quais não devemos querer ficar. Partes de nós que pertencem ao passado. Partes de nós que já não fazem falta. Partes de nós que só nos prejudicam. Que nos impedem de crescer. Há os que decidem agarrar-se a tudo. Tudo o que têm de bom, mas também tudo de mau que há em si. Os que se tornam num poço dos erros do seu passado, de características que neles já não deviam residir. Os que não evoluem porque continuam a agarrar-se a quem foram. Os que se fixam no seu passado e se esquecem que é no presente que devem residir e que é no seu futuro que devem arduamente trabalhar. Os que ficaram presos num olhar para trás e o tornaram eterno. São esses os que se afogam em mágoas passadas. Os que se autodestroem. Os que se matam durante a sua desmesurada e mal pensada luta pela sua salvação.
Permitamos, então, que algumas partes de nós que já não nos fazem falta nos abandonem. O ato de as deixar ir é doloroso, é certo, mas a leveza que sentimos quando os constituintes negativos de quem outrora fomos deixam de fazer parte de nós é inigualável. Porque tal como uma fénix necessita de se queimar para depois poder renascer, mais jovem e mais bela do que nunca, o mesmo acontece connosco. Há algumas partes de nós das quais temos de abdicar se desejamos crescer. Se desejamos tornar-nos pessoas melhores. Se desejamos evoluir. Se desejamos ser melhores, mais fortes. Se desejamos renascer.

Menina Dos Cabelos Ao Vento

Menina dos cabelos ao vento, criada em amor. Menina dos cabelos ao vento, corre livre pela terra que a viu nascer. Menina dos cabelos ao vento brinca até a luz do dia se desvanecer. Menina dos cabelos ao vento, igual a tantas outras por fora. Mas mais diferente por dentro do que elas não poderia ser. Separa-as o que vai na alma da Menina. Esse sonho que palpita dentro dela que com ninguém partilha, pois sabe que com ela gozariam. Essa vontade de algo mais para si do que nascer para casar, pagar as contas e morrer. Essa inabalável crença nas suas escondidas virtudes, que a levariam mais longe do que alguém alguma vez sonharia. Essa vontade de voar mais alto do que alguém alguma vez voou. Só para pôr os cabelos ao vento no ar que nenhuma outra face acariciou.
Quando a viram partir, foram muitos os que nela não acreditaram. Muitos foram os que lhe desejavam cortar os cabelos. Muitos eram os que para ela desejavam um futuro como o que se adivinhava para tantas outras, que em tudo mas em nada se pareciam com a Menina. Mas a Menina dos cabelos ao vento não se contenta com o futuro que lhe desejam. Deseja guardar a sua terra no coração, mas levar o seu coração para bem longe. Deseja ser conquistada pelo melhor que este esférico paraíso tem para oferecer. Porque a Menina dos cabelos ao vento nada tem a perder.
Agora a Menina dos cabelos ao vento olha todos do alto da sua colina. E vê como se acotovelam quando passam por aquela que em tempos foi a sua morada. E vê como as meninas suspiram ao desejarem ser corajosas como ela. E vê o arrependimento nas faces de quem outrora a desacreditou. E sente o delicioso vento da vitoriosa alegria acariciando o seu cabelo. Nunca desistas de sonhar: é este o seu apelo. 

Limites da vida

Não quero vida meio vivida. Não quero felicidade meia feliz. Não quero sorrisos meio genuínos. Não quero gargalhadas meio forçadas. Não quero meios. Não quero tristeza meia triste. Não quero desgostos meio sentidos. Não quero sofrimento meio sofrido. Quero tudo. Tudo de bom, mas também tudo de mau. Tudo, sem exceção, que esta vida tem para oferecer. Pois acredito que sem termos provado o mal, não saboreamos convenientemente o bem. Sem termos sofrido, não damos o devido valor à felicidade. Sem termos falhado, não damos verdadeira importância ao sucesso.
No jogo da vida, não quero livro de instruções. Não que ache que sei o que fazer, ou para onde ir. Será que há alguém que saiba? Não é que queira ficar pelo ponto de partida, pois por todas as paragens quero viajar, todas as aragens quero sentir. Mas a vida é uma aventura, e as verdadeiras aventuras vivem-se integralmente. As verdadeiras aventuras são demandas realizadas sem guia, sem bússola. As verdadeiras aventuras são vividas em constante descoberta, são repletas de novidade e surpresa. Sei bem o que quero e, ao longo do meu caminho, vou descobrindo como chegar onde quero.
Não receio tentar. Não receio falhar. Pois os que não falham, não tentam. E os que não tentam não provam o que melhor nesta vida há. Não receio cair, pois sei que me consigo levantar. Os que não caem, não caminham. E os que não caminham não exploram. Os que não exploram, não vivem.
A vida é um risco. A vida é um mistério, uma incógnita. A vida é linda e só aqueles que não a receiam descobrem realmente o quão linda ela é. Pois a vida é reservada, e não mostra a sua beleza a quem dela passa a vida a fugir. A vida é deliciosa e não a quero apenas provar. Quero saboreá-la, quero temperá-la, quero cozinhá-la a meu gosto. Quero que a vida me leve aos meus limites, mas quero também conhecer os limites da vida.
Confio na vida. Confio em mim. Confio que, passo a passo, desenharei o meu caminho em direção à versão melhorada de quem sou. A alguém mais calejado, mais sarado, mais feliz. A alguém tão novo, tão inocente. A alguém tão sábio, tão incrivelmente experiente.

Viagens

Era tão fácil sonhar com aventuras infinitas, com longas viagens, com a concretização de todos os sonhos quando o meu olhar estava preso no relógio de parede, contando todos os segundos até ao fim de mais uma aula. Era tão fácil sonhar alto quando ainda não conhecia o verdadeiro conceito de responsabilidade. Era tão fácil transformar situações meramente hipotéticas em algo que podia realmente acontecer. Era tão fácil achar tudo tão fácil. Era tão fácil viver.
Depois, cresci. Cresci e entendi que nem sempre podemos largar tudo para partir à descoberta do desconhecido. Entendi que as aventuras com que tanto sonhava não passavam disso, de um sonho. Entendi que, por muito que já ninguém ditasse a que horas devia chegar a casa, o que devia comer ou para onde devia ir, o meu destino continuava nas mãos dos outros. Entendi que crescera, mas nada mudara. E adiei. Adiei a concretização dos meus sonhos. Adiei as aventuras que tanto ambicionava. Dei prioridade às obrigações, deixando para segundo plano tudo aquilo que prometera a mim própria que iria conquistar.
Mas, depois, cresci. Quando pensava que já não podia crescer mais, cresci. E entendi que nunca pararia de crescer. E entendi que nada, nem ninguém, se poderia pôr no caminho entre eu e os meus sonhos, eu e os meus objetivos, eu e quem desejo ser, a não ser que eu permitisse tal coisa. E tal coisa eu não ia permitir. Entendi que podia desperdiçar a minha vida a arranjar desculpas para não encontrar o que tanto desejava encontrar, desculpas para não ser quem tanto desejava ser, ou que podia aproveitar o tempo que dispunha para fazer o que tinha sido feito. E fazê-lo por mim, e por mim apenas. Entendi que era o medo que me impedia de prosseguir. O medo do desconhecido. O medo de arriscar. O medo de ir mais longe do que alguém alguma vez tinha ido. O medo de ser a minha própria luz, sem esperar que alguém iluminasse o meu caminho. O medo de ser eu própria, sem medos. Entendi que as mais importantes viagens são as que fazemos sem gastar um único cêntimo, sem dar um único passo. São aquelas que fazemos dentro de nós. São aquelas que nos transportam até aos outros. São aquelas que nos fazem crescer.
Porque o número de países que já visitámos é irrelevante se em todas as nossas viagens nos esquecemos da nossa alma em casa. Porque o número de países que já visitámos é irrelevante se a nossa alma for viajante, recusando-se a ter um só lar, chamando ao mundo a sua casa.

Alma Eterna, Corpo Passageiro (de mi para tim #1)

Podes proteger-te, podes evitá-la, podes enganá-la, rasteá-la. Mas não podes esconder-te dela eternamente. Não podes fugir dela para sempre. Não podes impedi-la de se aproximar de ti. Não tens sequer de o tentar fazer. Não receies a morte. Não receies o que não podes controlar. Não receies o que ultrapassa a tua força, o teu domínio. Não tentes controlar o que ninguém controla.
Receia, sim, tudo o que podes fazer e não fazes. Todas as palavras que tanto querias proferir, palavras que tudo podem mudar mas que deixas morrer nas profundezas do teu ser, enterradas em medos, inseguranças e ansiedades. Receia, sim, morrer antes do teu último suspiro. Receia desistir da vida quando ela ainda não desistiu de ti. Receia confundir a natureza passageira do teu corpo com a eternidade da tua alma. Receia deixar as melhores partes de ti morrerem por receares que sejam rejeitadas pelo mundo. Receia receares quem és de tal forma que passas a vida a fugir de quem não podes escapar. Receia olhar para trás e entender que viveste uma sucessão de dias apressados, dias encavalitados uns nos outros, dias demasiado normais, dias pouco especiais, chamando-lhes vida. Receia passar pela vida e não viver. Receia não amares o suficiente. Receia não dizeres o quanto amas quem mais amas. Receia não fazeres loucuras. Receia não te orgulhares da tua ligeira loucura, sem a qual ninguém são se consegue manter. Receia deixar os teus sonhos para segundo plano, enquanto tentas ser quem os que nada sabem te querem ver ser. Receia perderes tudo o que tens enquanto buscas o que não podes, nem deves, ter. Receia deixar de desfrutar da tua felicidade enquanto te preocupas com a possível infelicidade do amanhã.
Sê feliz hoje. Aproveita o que tens hoje. Porque os únicos dias do ano em que nada pode ser feito chamam-se ontem e amanhã. Hoje, tudo é possível. Então vai, pequeno guerreiro. Parte para a luta, torna a vida tua, coleciona sonhos, memórias, objetivos, beijos, abraços, gargalhadas. Ama intensamente, cuida da tua alma. Vive a vida ao máximo, sem recear o seu fim. Porque se dela tratares bem, a tua alma será eterna. E o que é eterno não morre, não tem fim. E uma alma eternamente feliz é o que mais quero para ti.

Menina dos Cabelos de Prata

Cabelos de prata, olhos de ouro, contagiante riso de diamante, coração viajante. Rosto marcado pelas muitas gargalhadas. Mãos doridas por durante tantos anos terem carregado pesadas espadas. Inigualável teimosia. Firme determinação. Temperamento fervilhante. Alma feroz. Sonhos sem limites. Pensamentos galopantes. Coragem infinita. Energia inacabável. Amor incondicional. Aventuras mil. Inúmeras histórias para contar.
A experiência na vida faz com que muitos se tornem medrosos. Cautelosos. Mas não teve esse efeito na eterna Menina. Tudo o que ela já viveu encorajou-a a mais viver. A mais sentir. A mais amar. A não deixar palavras por dizer ou ações por fazer. A desafiar todas a probabilidades. A espantar todos aqueles que nela não acreditam. A tornar-se mais dela e menos no que esperam dela. A ser mais incansável e imperdoável nesta sua infindável busca pela felicidade. Por si.
A aparência de virar cabeças já há muito o tempo levou. Mas a sua beleza vem do interior do seu ser. Porque a sua alma é linda. E essa beleza nada nem ninguém pode roubar. É o tipo de beleza que não se perde com o passar dos anos. É o tipo de beleza invisível aos olhos mas que se sente intensamente com a alma. O tipo de beleza que não passa despercebida perante aqueles que se encontram alerta para o que neste vida realmente importa.
Porque felicidade como a dela não se mostra, não se exibe. Vive-se. Transmite-se. Sente-se. Irradia-se. Porque esse seu tão próprio trajeto não se baseia em coisas, mas sim em momentos. Em sentimentos. Em pessoas. Em lágrimas. Em gargalhadas. Em significativas conversas nos mais improváveis locais. Em beijos. Em abraços. Em aventuras. Em provas. Em batalhas. Em caídas. Em recaídas. Em recuperações. Porque ela é só dela. Ela é do mundo e de quem mais ama. Ela não é de ninguém, mas é de todos.
Porque a Menina é mais rica do que qualquer outra pessoa alguma vez foi. Mas ela não conta notas, não. Ela não se detém com coisas tão supérfluas. Ela é uma colecionadora de momentos em que a felicidade que sentia era tão grande que não cabia em si. Ela coleciona sorrisos. Coleciona amor. Coleciona tudo o que a torna numa pessoa melhor, numa pessoa mais completa, mais feliz. Essas são as suas verdadeiras riquezas. E ela tem muitas dessas.
Ela é furiosamente feliz. Quando o assunto é felicidade, ela não se poupa. Para muitos, ela é louca. Mas se loucura é ser feliz sem limites, se loucura é aproveitar cada segundo com nunca antes vista intensidade, então que sejamos todos bem loucos. Bem como ela. Que abusemos da vida. Que sejamos felizes na nossa intensa loucura. Que sejamos loucos felizes. Loucos realizados. Loucos sem arrependimentos. Eternas crianças. Naturalmente aventureiros. Que o nosso único medo seja não viver a vida com suficiente intensidade, não dar a devida importância a cada segundo, não amar suficientemente. Que o nosso único medo seja passar pela vida sem verdadeiramente viver. Que sejamos todos um pouco como ela. Que tenhamos todos em nós um pouco da Menina dos Cabelos de Prata.

Esquecer de tudo.

Cada vez mais os mais preciosos momentos me escapam entre os dedos, fugindo para parte incerta de onde acredito não os poder recuperar. Cada vez mais as situações que não quero que tenham fim desaparecem num estalar de dedos. Ficam então as memórias, que são o que nos agarram a esses momentos que já lá vão. São o que nos conectam aos tempos em que a felicidade atingia tais extremos que em nós nem cabia. E há memórias, esses momentos tão bem guardados dentro de mim, esses pequenos momentos de ti, que receio mais do que tudo perder. Há tempos que tudo daria para não esquecer. Porque o mundo anda muito depressa. Os tempos passam. A gente cresce. E é muito fácil deixarmo-nos levar pelo desenfreado ritmo a que todos parecem caminhar. É fácil esquecermo-nos do que nos deu energia para começar a caminhada. É fácil esquecer-me de ti. Do teu sorriso. Desse intenso brilho no olhar que sempre me encantou. Desse teu abraço capaz de me fazer esquecer de tudo o que me apoquenta. Dos tão significativos silêncios. Dos cabelos ao suave vento dos últimos minutos de sol. Das longas caminhadas. Das brincadeiras à beira-mar. Das palavras que me dirigias que tudo em mim conseguiam curar. De tudo. De mim. De nós.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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