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Inspiration Lab

unicórnio

Olho à minha volta

E vejo gente

Que não se revolta

Que toma tudo como assente

Vejo quem quer ser diferente

Cair no espalhafato

Porque a diferença está na mente

E não na marca do sapato

Vejo humanos cinzentos

Que vivem vidas iguais

Rostos macilentos

Que se viram aos demais

Todos são cavalos

Num mundo onde a raridade é parca

Continuo a encontrá-los

E deles estou já farta

Mas há em mim algo colorido

Que me distingue dos demais

Na minha alma um tom garrido

Que desafia ideais

Chamam-me de diferente

Pela maneira como me visto

Mas só divirjo verdadeiramente

Quando me esqueço que existo

Chamam-me assim porque corro

De um lado para o outro

Ai, Jesus, se eu morro

E me lembram como um potro

Aí eu volto à vida

E mato quem me difamou

Posso viver numa corrida

Mas vida assim nunca ninguém levou

Porque vejo céus cor-de-rosa

Chamam-me me assim

Com meus sonhos mariposa

Vivo longe de mim

Uma num milhão

Sempre quis ser um unicórnio

Com infinita determinação

Até estourar o último neurónio

Dezassete

De primavera em primavera,

Já lá vão dezassete

Nascida numa nova era

Em que tantos erros se comete

Num novo milénio

De pacífico uma ilusão

Um viver boémio

Um respirar com sofreguidão

Vi mestres da oração

Violar para sair

Da sua solidão

E mentir

Sobre a devassidão

Que causaram

Ouvi artistas que, com uma canção,

Me mudaram

Ouvi de inocentes

Encarcerados na cadeia

Soube de gentes e gentes

Injetando na própria veia

O antídoto para tudo

O que há de bom

Esperei ouvir de um mundo mudo

E deliciei-me com o seu som

Vi imbecis

Assumir a liderança

São estes tempos vis,

Mas ainda há esperança

Se o Homem não me conseguiu desiludir,

Esteve lá perto,

O suficiente para sentir

Que nada na Terra bate certo

Gritei para o vazio

Descobri com assombro

Que posso deitar fogo ao frio

E nem ver o encolher de um ombro

Tentei mudar o mundo

Mas foi o mundo que me mudou

Mas não desisto por um segundo

De ser quem mais longe chegou

Hei-de ser nome assente

Na mais esquecida memória

Hei-de orgulhar muita gente

Figurar nos livros de História

Eu não vi muito da vida

E a vida ainda não viu muito de mim

Pois que não me dou por vencida

Até me esquecer de porque luto assim

Fome

É fome

Sempre que me lembro de ti

Vontade que me consome

Que me mata só por si

É morte

Que comigo teima

Uma dor forte

Que por dentro queima

É ardor

Que me leva de mim

Insuportável calor

Mas tão frio, por fim

É gelo

Que me enregela a alma

Mas prefiro tê-lo

Que enfrentar o silêncio, a calma

É o vazio

Tão cheio de nada

Que me deixa por um fio

Que me deixa esfomeada

Fome é sobre ti não ter qualquer pista

E mesmo assim seguir toda a tua ação

Fome é ter-te tão longe da vista

Quão perto estás do coração

Noite

A noite canta

Uma melodia que espanta

Quem não reconhece a tristeza

E não conhece beleza

Como a tua.

Ilumina a lua

A cidade triste

Que ergue escudos em riste

Contra a solidão

E toda a dor de coração

Em que nos vieste deixar

Só lhes resta chorar.

As árvores estão nuas

E o teu nome ecoa pelas ruas

E eu sofro morosamente

Mas aguento decorosamente

As lágrimas que querem cair

Pois não irias sentir

Contentamento

Ao ouvir o meu lamento

Por não te ter nos meu braços

Restam os sorrisos escassos

Trazidos pelo vento

Ou talvez pelo sentimento

De que foste feliz enquanto cá estavas

De que sorrias enquanto batalhavas

A maior luta que havias de conhecer.

Luta que acabaste por perder.

Resta-me sorrir

Por ainda sentir

Os teus braços,

Quentes abraços

Que me confortam a alma

Que me aproximam da calma

O mais que é possível

E é incrível

O quanto podes estar comigo

Ser ainda o meu abrigo

Já tendo ido embora.

Fico agora

Com a ideia

Que me corre em cada veia

A saudade.

Vem a idade

Passam os anos

E nós ficamos

Entregues às memórias

Desses tempos, dessas glórias.

A cidade adormece

E no silêncio até parece

Que reina a paz

A noite que finda traz

Novas dores,

Novos amores,

Novos desafios,

Novos desvarios

Mas a saudade não vai de mim.

Melhor assim.

Quero sentir-te em toda a parte

Não quero esquecer como é amar-te.

Heroína

Eram os cavalos brancos

E as carruagens

Tempos belos, brandos

Que hoje são só miragens

Era um conto de fadas

De príncipes e princesas

Punhamos de lado as espadas

Para discutir as incertezas

Vencíamos dragões

Na nossa história encantada

Não tínhamos complicações

Agora, não temos nada

Os cavalos ficaram cansados

E as carruagens lascadas

Muitos segredos acumulados

Entre histórias mal contadas

Sem ele, fiquei vazia,

Cedi à tentação

De ficar todo o dia

Mergulhada em autocomiseração

Depois vim a a perceber

Que para toda a cinderela há fada madrinha

E que tudo o que tinha de fazer

Era encontrar a minha

Mas ela não aparecia

Procurei por todo o lado

Até que então vi-a,

Num espelho, o meu reflexo projetado

E pensei: porque não eu

Personificar a salvadora que me fascina

Aproveitar a força que a minha mãe me deu

E ser a minha própria heroína?

comparações

 
Vão ao ginásio cinco vezes por semana
Às sete já estão fora da cama
Pavoneiam os seus decotes
Dinheiro têm a potes
Maridos capa de revista,
Foi amor à primeira vista
Estão sempre de dieta
Vida sem chocolate, vida incompleta
Conduzem bombas a que chamam carros
Dizem não ao álcool, drogas e cigarros
São tudo o que eu queria ser
Mas teria de dar tudo o que tenho
Para poder viver
Um só dia como elas
Criaturas tão belas
Que por mim só têm desdenho

Eu vejo muito Netflix
De tão nervosa, tenho tiques
Passo os dias no sofá, deitada
A casa sempre desarrumada
Maior caos, só no meu coração
A vida é uma complicação
Chego sempre atrasada
Sou desorientada
Posso ter quilos a mais,
Mas não me detenho
Com conversas superficiais
Nem me entretenho
Com namorados virtuais
Mas pelo menos sou alguém,
Não devo nada a ninguém
Posso não ser excêntrica
Mas pelo menos sou autêntica
A gargalhada é em mim vasta
E, por enquanto, por agora,
No entanto, e sem demora
Digo que isso para mim basta

Que seja.

A minha mão na tua

Os sussurros deles

Caminhamos pela rua

Para seres mesquinhos

Como aqueles

Falarem do nosso amor

Como se estivessem sozinhos

Eu finjo que não ouço

Tu finges que não vês

Mas não posso

Ignorar o rubor

Da tua tez

Quando ouves o que o que dizem

O mal que falam

Oxalá que nunca enraízem

A discórdia entre nós.

Lanço olhares que os calam,

Por aqui e por além,

Querem ver-nos reduzidos

A pós,

A ninguém.

 

Tanto lutei contra

Essa gente conturbada

Que, de tão reles,

É pouco mais que nada

Para eles,

A vida é uma montra,

Que criticam ao passar

Se ao menos eles soubessem

O quanto podem magoar

Talvez parassem

Ou então

Talvez continuassem

Talvez seja esse o objetivo

Mas, queiram parar ou não,

Ficarei contigo.

 

Porque a vida é nossa

E não de quem dela fala

E ninguém em nós fará mossa

Quem somos ninguém abala

Por isso que continuem,

Se são felizes assim

Mas que saibam que não contribuem

Para te afastar de mim.

Se eles nos quiserem julgar

Sem o mínimo pudor

Se quiserem questionar

Quem os teus lábios beija

Então, meu amor,

Que seja.

As malas rolam

Pelo chão polido

Meus olhos choram

Como se outra existência

Nunca tivessem conhecido

Pergunto-me se será

Coincidência

Ou se é a vida, má,

Que gosta

De nos roubar

A nossa razão de existir

Em ti, tristeza posta

Porque é que tens de ir?

Prometes que em breve

Vais voltar,

Logo que no chão

Caia neve

E nem sonhas

O quanto o meu coração

Não sabe esperar

Para que junto a mim te ponhas

No ar uma canção

Uma harmonia

De despedida

Um canto de ansiedade

Para quem terá de viver

Cada dia

Sem a razão da sua vida

E de que vale correr

Se na meta não está felicidade?

 

Na garganta, um nó

Vais voar para longe

E eu, que nem monge,

Fico só

balas

Caminho pelo mundo.

De mim ninguém tem memória.

Não sou mais do que um segundo

Nessa universal vasta História.

Elas circulam em torno de mim,

Delas estou à mercê.

Dentro de cada, um animal ruim.

E parece que ninguém vê.

Dentro de cada, uma fera.

Animais ferozes.

Delas ninguém espera

Menos do que ataques sangrentos, atrozes.

Finjo que não vejo

O mal que me querem fazer.

Nego o seu desejo

De me verem sofrer.

Pois que elas só atacam

Quando são desmascaradas

E elas nunca perdoam,

Pois nunca foram perdoadas.

 

Mas seduzem-me com cada vaidade,

Cada uma é um ser fascinante.

Tirem-lhes a liberdade,

Mas mantenham-lhes no dedo o diamante.

Quanto mais as conheço, 

Mais medo tenho delas,

Mas não há maior apreço

Do que o meu por criaturas como aquelas.

Por muito que me possam magoar, 

Protegem-me da solidão.

São o meu luar,

Afastando a total escuridão.

 

As pessoas são balas

Que evito pelo caminho,

Mas prefiro encontrá-las

A ficar sozinho.

 

 

 

 

 

 

 

egoísmo

Julgo que só entendi
Tarde de mais
Que nunca vi
Para além dos meus ideais.

O trinco chia,
A chave roda.
Som que te afligia,
Mas que já não te incomoda.
Para o ar é atirado
O teu já conhecido
Rol de perdões esfarrapados
Que te dão por vencido.
É o trânsito infernal,
É o trabalho complicado,
É a vida que vai mal,
Que me faz passar por mau bocado.
Os meus lamentos sem respostas
Vão procurar por ti
Encontram-te de costas
Onde ainda hoje dormi.
Uma garrafa na mão,
Olhar vago posto,
Comprimidos pelo chão,
Lágrimas secas pelo rosto.
Prostrado,
Na nossa cama,
Como alguém com a vida frustrado,
Porque ninguém o ama.
Algo assim nunca vi,
Assim nunca te quis ver.
Corpo drenado de vida.
Cansaste da corrida
E deixaste-me aqui,
A sofrer.
Diz-me, fui eu que não te dei
Espaço para falar?
Onde estavas tu quando jurei
Para sempre te amar?
Algo assim nunca vi
Assim nunca me quis ver
Corpo drenado de vida
Deixei a minha corrida
E agora até ti
Quero morrer.

Ainda hoje penso:
De que vale amar alguém
Se quando eles partem nós vamos também?
Perdi o senso,
Mas fiquei.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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