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Inspiration Lab

Voos

Quando a ténue luz celeste pôs termo à escuridão, alegremente anunciando um novo dia, há indeterminado tempo com meus exaustos olhos o horizonte varria. Relembrando. Sofrendo. Silenciosamente chorando as lágrimas que já mais não posso libertar. Sentindo o vazio que dentro de mim tanto espaço ocupa. Esperando desta dor um dia me poder livrar. Sabendo que nunca ultrapassarei o momento em que deixei que partisses para de onde ninguém vivo volta. Controlando esta revolta por te terem feito acreditar que os que na linha da frente defendem as cores da sua tão amada nação têm no céu reservado um lugar. Tentando aceitar as sentidas condolências de quem não conhece tamanho sofrimento como o meu. Tentando compreender como o mundo continua a girar, agora que te perdeu.
Sempre soube, no entanto, que triste era o destino teu. Desde do dia em que decidiste que entrar no campo de batalha, armas em riste, ardente sede vingança, com nada mais senão a esperança, era o que tinhas sido feito para fazer. Digo-te, então, se é que ouvir me consegues, que não te criei para morrer.
Que raiva tenho por quem sou, por não ter conseguido calar teus apaixonados discursos sobre tudo o que te levou a até ao fim caminhar. Que desilusão que por mim sinto por não corrido atrás de ti, por não te ter feito parar. Porque esses escuros caracóis de vapor atrás dos quais de junto a mim desapareceste ainda me torturam, nos piores dos meus pesadelos. E os sentimentos que ainda em mim perduram pouco mais são que profunda e eterna tristeza e ressentimento. Porque me juntei eu ao coro dos que bradavam, pedindo aos céus por segurança para os que partiam, agarrando-me também eu à vã esperança que os moviam? Porque desisti eu de lutar por te ter aqui? Será egoísmo esta minha vontade de não abrir mão de ti? Porque tem de ser assim? Como posso eu ser forte quando essa impiedosa bandida a quem chamam morte te levou para bem longe de mim?
Talvez me agarre à mágoa por te ter perdido por ser tudo o que tenho. Ou talvez esteja destinada a ser para sempre uma pobre amargurada por os meus olhos já não encontrarem os teus. Talvez aprenda a viver com o que resta de quem sou, já que grande parte de mim para longe levaste. Talvez parta para longe, e voe até onde tu voaste.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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