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Inspiration Lab

remorso

Descobri que te queria eternamente, até já não ser gente, num dia de verão. Dormias ao meu lado, tão pequena, tão serena, e aí eu soube que não havia neste globo mais feliz e sortudo namorado. Peguei na tua mão adormecida e, fitando esse teu rosto sonhador, jurei que era para toda a vida, jurei que era com todo o meu amor.
Marido e mulher, para o que der e vier, prometemos. Mais intensamente do que alguma vez fizéramos, vivemos. Para sempre, jurámos. E, afincadamente, as batalhas que se desenrolavam à nossa frente lutámos. Matámos dragões. Partimos em foguetões. Fizemos o impossível. Demos cor a este mundo, por vezes tão cruel, tão pouco misericordioso, tão terrível. Era para ti que vivia. Era teu todo o meu dia. Estava longe de mim quando de ti estava afastado. Minha esperança, meu futuro, minha bonança, meu presente, minha aliança, meu passado.
Mas o mundo gira tão depressa, acho que me deu a volta à cabeça. E, de repente, desse jeito que a vida tem para ludibriar a mais absorta gente, olhava para ti, mas já não te via. Não sei como, mas esqueci que tínhamos sido um só, um dia. Deixei que tanto passasse por nós, momento após momento. Deixei que morresse em mim esse outrora tão intenso sentimento. Deixei-te ir, mas tu ficaste. Quis partir, mas não deixaste. Aguentaste todo esse desgaste de amar também por quem se esqueceu de sentir. Amaste.
Que angústia que me quebra, que remorso que me parte, que sôfrega necessidade de, mais do que nunca, amar-te. Que dor por saber que a ganância por depressa viver levou esse que um dia me orgulhei de ser para longe. Que raiva por não ter desculpa, por ser tudo minha culpa, por não poder acusar, hábito esse que já tinha, o tempo, o trabalho, a pressa, a minha em direção a algo mais subida, a má sorte. Se nem consegui tomar conta de ti em vida, como irei amparar-te nos negros e solitários corredores da morte?
Agora, aperto a mão que não me sente e imploro para que não te vás embora. Toco o rosto que não sorri e juro que não é tarde de mais, que ainda posso ser melhor por ti. Sinto em meu redor essa tal de divindade de que todos falam mas que, até este instante, fora sempre, para mim, algo sem valor, e peço-lhe que não leve este meu tão subvalorizado diamante. Rogo-lhe que poupe a mais pura e bela alma que alguma vez conheci. Brado que não te leve daqui.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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