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Inspiration Lab

Reerguer.

Diziam-lhe que nada nesta vida ela iria conquistar. Que iria ser miserável enquanto existisse. Encorajavam-na a desistir do poucos sonhos que ainda tinha. Falavam dela como se fosse um caso perdido, como se não tivesse ainda tantas oportunidades para se reinventar. Declaravam a sua morte décadas antes de ela acontecer. Destinavam-lhe uma eternamente triste vida. E em tudo isto ela acreditava.
Acreditava porque a sua voz interior não era forte o suficiente para falar mais alto do que todas aquelas cruéis almas que tudo tentavam para a destruir. Acreditava porque não via a esperança diante de si. Porque não conseguia ver a luz ao fundo do seu longo e negro túnel. Porque a sua jornada parecia longa demais para a poder suportar. Porque não se achava forte o suficiente para carregar a pesada cruz que lhe parecia estar destinada.
E durante muito tempo, ela arrastou-se pela vida, contando os dias sem os fazer contar. Não conseguia ver as belas cores que pintam o mundo, pois os seus olhos baços tudo entristeciam. Não via os que lhe estendiam a mão, fixando-se unicamente nos que mal lhe queriam. Vivia envolvida nas trevas, numa noite sem fim, sem nunca ver o sol nascer. E assim ela se foi afundando, cumprindo as profecias que lhe tinham sido feitas, acreditando que nada podia fazer para evitar este negro caminho que lhe estava destinado.
Mas um dia, num raro momento de lucidez, ela compreendeu que o destino não é mais que uma desculpa usada por aqueles que não têm coragem para se erguer e enfrentar as batalhas que os aguardam. Por aqueles que tudo receiam. Por aqueles que não se julgam suficientemente fortes para mudar de vida, para mudar a sua vida. E, assim, ela decidiu tornar sua a sua história, retirando a sua vida das mãos das más almas que até então a comandavam. Concluiu que não estava perdida. Que ainda tinha muito que batalhar e muito que conquistar. Que, por muito tempo que levasse, por muito esforço que fosse necessário, um dia iria voltar a sorrir.
Não foi fácil, essa sua demanda. Porque quando se cai tão fundo como ela caiu, empurrada pelas mãos de todos os que a consideravam um caso perdido mas também (e principalmente) pelas suas, não é tão fácil quanto isso reerguer-se. Mas é possível. Tão possível que, para espanto não de todos, mas de muitos, ela conseguiu.
Viu o sol irromper no horizonte, iluminando as trevas que durante tanto tempo tinham dominado, aquecendo o seu coração e, pela primeira vez em tanto tempo que já nem se lembrava quanto, sorriu. Não um sorriso fraco, um sorriso falso estrategicamente elaborado para satisfazer aqueles que tudo dariam para a ver feliz, mas um sorriso genuíno, um sorriso verdadeiro que cura feridas, que une corações, que quebra barreiras e que move mundos.
Ela não tentou sequer vingar-se de todos aqueles que propositadamente tinham contribuído para a sua dolorosa queda. Porque ela sabia. Sabia que a melhor vingança era a silenciosa. Sabia que nada os destruiria mais do que verem o verdadeiro sorriso que agora lhe brilhava no rosto, ofuscando tudo o que de negro havia em seu redor. E então deixou que a sua felicidade falasse mais alto e fosse a voz da sua vingança. Deixou que a paz que irradiava atingisse dolorosamente cada um deles.
E então ela foi feliz. Puramente feliz. Não só porque finalmente tinha quem era de volta, mas porque sabia que tinha sido a única responsável por esta recuperação. Porque era a heroína da sua própria história. Essa inicialmente trágica história mas que, graças a si e só a si, teve um final feliz.

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Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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