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Inspiration Lab

Número Um

Todos os dias, era connosco que te reunias, em torno da tua tão esmerada refeição. Não era vasta mas, como sempre dizias "É quanto basta e o que conta é a intenção". Conversa de conveniência. As aulas, o tempo, o trabalho. Conversa de quem esconde o que perturba a sua essência. Não se falava de problemas à frente do pirralho. Mas eu ouvia. Eu sabia. Só discutiam quando pensavam que eu já dormia, e era aí que eu escutava. Queria saber o que se passava. Queria saber qual a razão para tanta discussão, para tão tenso murmurar. Queria tanto ajudar.
Um novo dia. Estava sentado na minha secretária, mas do livro nada via. Olhos fixos no quadro, mas tão depressa me perdia. Os professores reclamavam, insistiam, gritavam, mas nunca quis saber da escola. Para quê pensar em equações quando, no meu pensamento, podia estar a viver o meu momento, a experimentar a melhor das emoções, só eu, o campo e uma bola?
Chegava cedo. Os outros deixavam-se ficar. Quando pisavam o relvado, já estava eu todo suado de tanto treinar. Deixava-os olhar. Deixava-os falar. Não me importava com o que de mim pensavam, não era isso que me faria perder, não era isso que me ajudaria a ganhar.
Acabava o treino. Era aí que toda a gente para a sua família regressava. Mas eu não tinha para quem voltar. Ele sabe-se lá por onde andava e o teu segundo turno estava ainda a começar. Então eu ficava. Tentava. Treinava. Aperfeiçoava os erros que me levavam a falhar. Eu queria tanto aquilo. Ninguém podia sequer imaginar. Era aquele o meu asilo. Entre as quatro linhas encontrara o meu lugar.
Quando a noite já reinava, quando já nem conseguia ver a baliza para a qual rematava, acabava por me fazer ao caminho. Ainda ia na estrada, mas já via a luz da tua presença, da tua comida já sentia o inconfundível cheirinho.
Cansado, deixava-me cair na cama e aguardava pelo silêncio tenso que quem tantas noites como aquela viveu não engana. Tardava, mas eventualmente lá começava, aquele abafado discutir. E eu, quieto e calado, a ouvir. Era o dinheiro, era a bebida, estava tão cara a vida, e este mês ainda custava mais. Se ao menos ele colaborasse, se fizesse, se ajudasse, mas não o fazia, afinal os homens são todos iguais.
Um dia, alguém me via enquanto corria. Tive uma oportunidade. Inédita para alguém da minha idade. Era o tudo ou o nada. Estava na hora de me fazer à estrada. Fui para longe viver. São ossos do ofício. É preciso sacrifício se se quer vencer. Choraste tanto. Foi tão complicado. Queria acalmar esse teu pranto. Ficar contigo mais um bocado. Mas a vida não espera por quem fica a vê-la passar. Esta era a minha chance, e tinha de a agarrar.
Disseram-me que como eu não havia mais. Então porque é que naquele lugar parecíamos todos iguais? Todos com o mesmo desejo. Tão poucos chegariam onde queriam chegar. Mas eu não ia desistir do meu sonho, agora que dele já tivera um lampejo. Era agora ou nunca, e eu não me ia deixar ultrapassar.
Hoje sou quem sou porque um dia fui um menino que muito sonhou. Um menino só teu. Um menino que muito perdeu. Um homem que tudo ganhou. Mesmo tendo mais do que alguma vez tinha imaginado, mantenho esse menino a meu lado. Deixo-o coordenar o bater do meu coração. Deixo-o constantemente avivar a minha ambição. Deixo-o orgulhar por te ter conseguido dar tudo aquilo que tanto mereces. Deixo-o festejar por os céus terem ouvido as tuas preces.
De botas rotas e joelho esfolado a incontáveis carros e motas, a homem desejado. Eu, título principal. Eu, que na falta de melhor, dava pontapés numa bola de jornal. Eu, estrela internacional. E tudo devido a quem sempre em mim acreditou. Tudo devido a quem sempre por mim trabalhou. Tudo por quem nunca, por um efémero segundo, de mim duvidou. Tudo por quem comigo sonhou. Eu, que não era ninguém. Obrigado, minha mãe.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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