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Inspiration Lab

Musicalidade: Escolho-me a mim

Limpei as tuas lágrimas. Calei o teu medo. Chorei em segredo. Matei os teus receios. Alimentei os meus anseios. Só para ficares bem. Não sei o que esperava, não mais que um obrigada, mas até disso tive que ficar sem. Sem ti, sem tudo eu fiquei. E ver-te ir embora, ainda o sinto agora, esse aperto, esse desesperar. Essa sede por ti, essas perguntas sem fim, esse amor que certamente me iria matar.
Consigo agora compreender que não tarda a morrer a alma daqueles que insistem em se queimar por quem tanto gosto teria em os ver arder. Consigo agora entender que o amor também mata, que o amor também destrói. Se não for bem cuidado, o amor corrói. Porque o próprio amor também precisa de ser amado. E o meu não foi.
E vida levou-me, então, a lugares que só a dor alguma vez conheceu por ter feito tudo por quem de junto de mim tão celeremente desapareceu. E fui com o vento, que muito mais que isso foi, que te levou para longe de mim. Fui da vida, fui do sentimento, fui quem eu nunca conheci. Fui casca vazia, corpo sem alma, homem sem ti. Fui poço de sofrimento, gente sem alento. Morri.
E nem me posso orgulhar de eventual altruísmo, porque aqui estou eu, fitando a cidade adormecida, nada mais do que uma alma esquecida, chorando por infortúnio meu. Chorando por quem de mim correu. Queixando-me da crucial parte de mim que morreu.
E depois de meses sem ver o teu sorrir, sem ouvir o teu rir, sem escutar o teu chorar, sem sequer fitar o teu olhar, depois de caixas e garrafas vazias e entre acessos de por ti desesperar, quando finalmente alguns pequenos pedaços dispersos do que ainda resta de mim se começam a juntar, vejo-te ao longe chegar. Vejo-te ao longe soluçar. Vejo-me correr até ti, para uma vez mais te salvar. Para uma vez mais me rebaixar. Para uma vez mais me esquecer. Para uma vez mais me perder. Vejo-me afundar. E sei que não sou portador de força infinita. E, bem cá por dentro, é por ti que a minha masoquista alma grita, mesmo sabendo ao que me irás levar. Sei que não sou daqueles que, mesmo depois de incontáveis quedas, se conseguem levantar.
Então eu escolho não olhar. Escolho afastar. Escolho o que ainda posso ser salvar. Escolho virar costas e controlar esta quase incontrolável vontade de correr para te abraçar. Escolho o que nunca escolhi. Escolho-me a mim.

 

 

[Inspirado em 'Save Myself', de Ed Sheeran]

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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