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Inspiration Lab

Monstros.

Antes, costumava ter imenso medo de monstros. O monstro do armário, que se escondia sempre atrás dos casacos de inverno. O monstro da cama. Apesar de ninguém o ver, eu bem sei que via dois olhos brilhantes reluzindo na escuridão. Tantos monstros, que tanto me assustavam. Hoje, já não tenho medo desses monstros. No armário dos casacos de inverno, o único intruso indesejado é o pó e debaixo da cama tenho tanta tralha que nenhum monstro quer habitar num sítio tão desarrumado.
Já não tenho medo desses monstros, mas tenho medo de outros. Outros que me assustam muito mais. Hoje, receio os monstros que habitam dentro de nós. Os monstros que nos atormentam, os monstros que tomam as nossas almas como casas e se tornam parasitas da nossa existência. Hoje, receio os monstros que dentro de mim vivem, com quem travo diárias violentas batalhas. Receio os monstros que outros mandam para cima de mim.
Mas de que vale, afinal, ter medo? De que vale recear, se nada fizer para combater o medo? Quando a fada dos dentes era ainda uma realidade para mim, tive que encher o peito de ar, abrir o armário, espreitar lá para dentro e concluir que não havia, efetivamente, monstro nenhum. Tive que enfrentar o meu medo. Então porque é tão mais difícil agora? Talvez porque receio descobrir o que já deduzo: que quando espreitar para dentro do meu armário encontrarei, de facto, um monstro, senão mais. Mas o facto de ele existir não quer dizer que ele me afete.
O sentido da vida não está em tentarmos derrotar todos os nossos monstros de uma só vez, não, pois isso seria impossível. Não está em fingir que eles não existem, isso é apenas fechar os olhos à verdade. Não está em esperar que alguém nos abrace e prometa que tudo vai ficar bem porque por vezes não há ninguém disposto a isso. Por vezes não vai ficar tudo bem. O sentido da vida está, sim, em vencermos os nossos monstros pelo cansaço, superando os desafios que eles nos colocam diariamente. Está em, mesmo sabendo que os nossos monstros estão lá e provavelmente nunca vão deixar de estar, aprender a ser feliz. Está em recusarmo-nos a ser infelizes. Está em lutarmos. Está em enfrentarmos os monstros que nos atormentam, um dia de cada vez, até que eles deixem de nos atormentar.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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