Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Inspiration Lab

invisível

Descobri quem verdadeiramente era no lugar onde toda a gente desespera para enterrar que um dia foi. Construí a minha vida como sólido monumento, afastei-me da corrida de quem procurava o seu alento. Fiz de mim a minha tela, fugindo de quem, na luz, resumia a sua obra a frágil aguarela.
Rodeada pelo nada, tornei minha a vida por mim tão afincadamente imaginada. Comi pedra, para mim pão, senti no vazio o toque dessa por mim tão desejada mão. Brinquei nas poças, praias de mar, convenci-me a por ali ficar. Respirei o fogo, transformando-o em ar, enterrei os meus pés no lodo, acreditando que em areia se havia de tornar. Vi um amigo num penedo, da solidão venci o medo, acabei por me encontrar.
Mas, um dia, um raio de luminosidade interrompeu essa minha tão real fantasia. E reencontrei-me com esse meu passado mundo, regressei por curiosidade. Devia ter sabido voltar para esse lugar que, sem nada perguntar, me tomou como seu protegido. Mas era tão longínquo esse momento em que, por procurar tanto sentimento, deixei de sentir. Estava tão longe essa altura em que, farta dessa permanente penúria, decidi fugir.
Era tão brilhante, este tudo! De mim estava o céu diante, de mim, eu que me julgava eterna habitante desse tão negro submundo! Mas esqueci a existência da palavra 'suficiente'. Estava tão diferente. Perdi quem fora antes. Se tinha ouro, desejava diamantes. Se tinha alegria, ansiava pela euforia. Podia drenar todas as fontes deste mundo, que continuaria a sentir esta incontrolável sede. Tornei-me em mais um detestável exemplar dessa espécie cuja ânsia de ter demais de ser feliz a impede.
Agora, volto para a sagrada companhia dessa tão profunda noite que me deu a conhecer a vida como tanto queria, essa noite que me mostrou o dia. Agora, volto para viver nessa invisível magia. Agora, regresso a esse vazio abençoado que me deu tudo o que por essa maldita luz me foi retirado. Porque prefiro moldar quem sou no nada, como muito valorizado, do que eternamente divagar por um mundo tão mal amado.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D