Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Inspiration Lab

Eterna Criança.

Pergunto-me como tudo passou do presente para o antigamente assim, tão de repente. Pergunto-me como abri mão do sol que possuía, para correr para a perigosa escuridão. Como o abandonei, não sei. Só sei que nele já não me encontro. Só sei que já não estou nesse mundo que um dia me pertenceu. Esse mundo onde os sonhos eram ilimitados. Onde os medos eram facilmente ultrapassados. Onde as feridas eram curadas com beijos e abraços. Onde nos podíamos afastar de tudo o que nos magoava.
Límpidas gargalhadas. Infinitas correrias. Imortal felicidade. Castelos na areia até já não existir mais terreno para construir. Covas escavadas tão fundo que jurávamos ver o centro da Terra, lá bem ao longe. Longas viagens que nos embalavam. Ver o mundo do alto dos ombros de quem estava nos estava disposto a carregar. A felicidade do primeiro gelado degustado, que acabava por adornar tudo o que vestíamos. A emoção dos primeiros metros percorridos pedalando incessantemente, nem imaginando que já ninguém nos segurava. Histórias lidas nos colos mais quentinhos e confortáveis. Infindáveis noites sem dormir, fitando o monstro que jurávamos ver no armário. Abraços que não acabavam. Risadas que todos os males espantavam. Era assim.
Tempos de sonhos. Tempos de incomparável alegria. Tempos de bonança. Tempos de preparação para o que ainda não sabíamos que à nossa frente se atravessaria. Tempos de inocência. Tempos que não voltarão. Tempos que guardo bem guardados no mais seguro dos cofres, bem lá no fundo da minha existência. Memórias que me relembram a importância de ser feliz. De ser eu. De ser criança.
Pergunto-me, então, porque tanto desejava crescer. Agora cresci. E o que pensava ver, não vejo. O que queria fazer, não faço. Porque o que vejo não é que o que sempre quis ver. E o que pensava que podia, não posso sequer pensar em fazer. Tudo o que desejo é poder voltar atrás. Não para mudar o que quer que fosse, não. Mas para poder viver tudo outra vez. Para estar com quem já não estou. Para ser sem esforço quem todos os dias me esforço por ser. Para me reencontrar com quem aprendeu a sorrir. Para me reencontrar com quem aprendeu a amar. Ainda hoje incansavelmente persigo essa parte de mim que de mim insiste em fugir. Essa parte de mim que consigo levou a simplicidade de ser criança. Essa parte de mim que consigo levou a facilidade de viver. Viver era instintivamente fácil. E pode continuar a ser. Pretendo, então, ser eterna criança, para eternamente feliz viver.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D