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Inspiration Lab

encanto

O frio envolvia as trevas, mantendo as ruas desertas. Era a hora de quem não tinha casa sair à rua para se tentar encontrar. Era a hora das almas torturadas pelas sombras se deslocarem, na esperança que ninguém as ouvisse chorar. E nessa mesma hora, pelas ruas que todos conhecem mas que ninguém quer conhecer ele deambulava, murmurando para si próprio, os seus olhos transparentes tomados por uma tempestade fixados no nada. Perdido na escuridão, certo estava que nada podia fazer para salvar a sua alma de se perder na solidão.
Foi então que ao longe um canto soou. E nunca nada tão belo ele tinha ouvido. As palavras entoadas ele não entendia, mas o sentimento com que eram cantadas incendiou-lhe o coração. Caminhou, então, em direção à voz que o aquecia, para encontrar uma menina cantando com tudo, tocando para o nada. A emoção com que ela cantava arrebatou-lhe o coração. Ficando ele sem palavras, deixou-se encantar. E ele que nem era homem para lágrimas, deu por si chorando a sua emoção. Foi a força do cantar da menina que era bem mulher que o apaixonou. Foi a música que os uniu, o canto que os juntou.
Hoje em dia é diferente, apesar de tudo permanecer igual. Fácil é olhar para eles e não reconhecer quem um dia foram. Pois só os olhos atentos reparam que nunca mudaram. Porque por vezes parece que a vida é ocupada demais para amar. Por vezes parece que a vida nos dá tanto que fazer que nos separa do que deve ser feito. Porque o mais fácil é inventar desculpas para não se permitir sentir. O que os distingue, no entanto, de tantos outros que partilham uma vida não é o facto de por ela caminharem. Eles correm, correm muito. Correm de tudo, correm para todos. O que os distingue, na verdade, de tantos outros, é a capacidade de parar. E eles param. Porque quando ela canta, e encanta, o mundo dele, o mundo dela, o mundo deles (o mundo é deles!), pára. E quando eles param, param para amar.

 

 

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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