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Inspiration Lab

descobertas

A sua face voltada escondia a expressão de dor que dela tomava conta. Mas não escondia os ombros afundados como se carregassem o mundo inteiro. Não escondia as mãos tremelicantes nem as pernas hirtas, maneiras diferentes de tentar canalizar a mesma emoção. Não escondia a dor que lhe corroía o coração.
Mas que vontade de desistir! De virar costas a tudo. De esquecer tudo o que a magoava. Tudo o que dentro dela guardava. De viver uma vida que é mais que constantes preocupações. Constantes desilusões. Constantes adeus. Que vontade de dizer adeus a tudo o que a magoava! Devia desistir, mas ela continuava! Porque enquanto parte dela de tudo queria fugir, de tudo se queria esconder, parte de si sabia também que não era fugindo dos seus monstros que os mataria. Não era virando costas à vida que ela se dissiparia.
"O que se passa?" Aquela frase. Aquela frase que ouvira dezenas, centenas de vezes anteriormente mas que nunca nada para ela significara. Aquela frase, aquela pergunta que normalmente não passava de uma forma de fugir dela. De ser educado. De perguntar sem realmente desejar uma resposta. Mas o agora não era normalmente. E os outros não eram ele.
Queria falar. Queria deixar fluir tudo o que dentro de si há anos se acumulava. Queria parar de se julgar por ser humana, por sentir, por viver. Queria dar uma oportunidade a si própria para renascer. Queria chamar por ajuda, chamar por alguém. Chamar por alguém que fosse mais do que só isso, só alguém. Queria chamar por ele. Talvez ele fosse diferente. Talvez ele não se limitasse a fingir. A fingir que compreendia. A fingir que queria ajudar. A fingir que a queria. E se não aproveitasse agora, quando aproveitaria? Se não falasse agora, quando falaria? Se não se abrisse com ele, com quem se abriria?
Virou-se, então, de costas para a parede branca por ela pintada de negro que há tanto fitava. Virou-se de costas para o seu passado, de costas para tudo o que a atormentava. Estava preparada para se salvar. Estava preparada para dar o determinante passo em direção à sua felicidade. Abrindo os olhos, encarou-o. Encarou-o e apercebeu-se que nada encarava. Porque o espaço que ele antes ocupava (será que fora da sua imaginação?) não denunciava a sua presença.
Sentiu-se traída. Ele, que sempre a seu lado estivera. Ele, que sempre a acompanhara. Ele, que sempre fora um sempre, sempre fora um tudo. Ele, que a abandonara.
Foi então que entendeu. Foi então que cresceu. Foi então que tudo fez sentido. Foi então que entendeu porque o amava. Ele não tentara resolver-lhe os problemas. Não tentara livrá-la da dor. Não tentara pressioná-la, não. Ele dera-lhe armas para lutar. Dera-lhe um abraço para o qual voltar. Dera-lhe inspiração para pensar. E agora, com a ajuda dele mas graças a si mesma, tinha uma voz para falar. E uma importante tarefa para executar. Pois era tempo de deixar de perder tempo. Era tempo de enfrentar o que há muito andava a evitar. Era tempo de viver. Era tempo de aproveitar. Era tempo de ser. Ser feliz. Muito feliz.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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