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Inspiration Lab

Cinza

Era só mais uma colhendo tão doce fruto da minha tão tenra idade. Era só mais uma que dentro de si se encarcerava, em busca da liberdade. Era só mais alguém cujos sonhos voavam mais além. Mas estava destinado que o meu pensar não conseguiria ultrapassar a inacreditável força que tinha o meu mentiroso acreditar. E, de tanto sonhar com grandes voos, nem por mim dei quando até mais alto do que os limites meus voei. E abri mão de tudo o que, até ali, fora verdade, para me entregar à confusão e ansiedade. Ansiedade que me acolheu e envolveu nos seus braços, alimentando-se do desespero meu. Desespero que me levou, sim, levou essa que tanto sonhou, a para o estrelado e esperançoso céu deixar de olhar. Tão sonhadora, tão corajosa, tão frágil, tão medrosa, a menina que tudo podia de tudo desistiu.
E, agora, o ensurdecedor ruído da maquinaria que me rodeia quase cala o meu divagar. Mas, por muito que a (quase) tudo alheia, não consigo deixar de pensar. O que de mim seria se tivesse posto travão ao meu duvidoso acreditar? E, agora, as minhas mãos enegrecidas pelo carvão já esqueceram as cartas de amor que com tanto carinho escreveram, quando tudo o que eu tanto compliquei era ainda tão simples. E quando, agora, os meus olhos já cansados contemplam aquele que a minha imagem reflete, vejo ainda a menina que um dia fui, tão igual, mas tão, tão diferente. E quando, agora, as minhas já débeis pernas percorrem os melancólicos corredores de monstros metálicos ladeados, de tristes tons de cinza banhados, onde tantos sonhos nasceram e outros tantos foram despedaçados, é fácil imaginar como seria o meu viver se tão depressa eu não tivesse querido crescer. Quão ligeiro seria o meu andar se tão difícil vida não me tivesse levado a escolher? E, nas raras vezes em que o meu pensamento foge para longe de tão rotineiro e forçoso trabalho meu, dou por mim a pensar se há quem, como eu, tenha o azar de receber a vida que escolheu.
Quanto não dava eu para reverter a contagem do tempo e, nem que fosse por um só momento, para o colo de quem fugi voltar? Quanto não dava eu para ser mais do que a eterna menina, que tarde de mais se arrependeu? O quanto eu desejava regressar àquela madrugada em que, pela vez derradeira, transpus a porta do meu tão doce lar! E travar essa menina, tão bela, tão inocente, tão fingida, tão carente de à eterna desgraça se condenar. E convencê-la a regressar. Regressar a sua casa, acalmar seu coração em brasa e pelo momento certo para descolar esperar.
Mas o tempo não perdoa, sou menina que já não voa e sobre leite derramado não adianta chorar. O meu mal está feito, pela vida perdi todo o respeito, e por isso meu destino é esse mal pagar. Mas tu és tão jovem, tão menina, e tens um longo caminho para andar. Ainda há tanto para fazer, tanto para viver, tantas razões para as tuas armas continuares a segurar. Luta, vive, escuta, vê, sente, mas sê prudente.
O meu mal não foi sonhar. O meu mal foi, sim, no que não existia acreditar. Foi colocar tudo o que era nas mãos de quem de mim não soube cuidar. Foi ter-me esquecido dos meus sonhos para abraçar aqueles que pertenciam a quem mais tarde só me iria deixar. Foi parar de por mim pensar. Foi deixar de sonhar.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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