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Inspiration Lab

Antes e depois de nós.

Durante tanto tempo que nem sei ao certo quanto, arrastei-me pela minha vida, aguardando pacientemente pelo momento em que o meu coração se reparasse. Ingenuamente acreditando que a cura para os meus males surgiria com o tempo. Foi nos dias em que a escuridão me engolia, em que a solidão me consumia, que entendi que podia aguardar eternamente. Podia aguardar eternamente que, se nada fizesse, nada em mim mudaria. Porque quem ainda me mantinha acordada, quem secretamente desejava que me salvasse, tinha viajado para bem longe de mim, procurando cura para os ferimentos que também eu lhe provocara, fugindo da dor que, sem intenção, eu própria lhe infligira. Porque nada nem ninguém me iria ajudar. Porque todos pareciam alheios ao meu sofrimento. E eu era tudo o que eu tinha. Demorou, mas pude finalmente entender que a minha presença, a minha fé, a minha força, o meu eu era tudo o que eu necessitava também.
Tudo começou com coisas efémeras, mas não de todo insignificantes para este longo e penoso processo. Coisas que passariam despercebidas a muitos, coisas que passaram despercebidas a todos. Mas não a mim. Tudo começou com um olhar ao espelho, arriscada coisa que há eternidades não fazia. Um enfrentar do meu reflexo. Um reconhecimento de quem via à minha frente, mas que não desejava mais ver. Porque quem me fitava era uma fiel cópia de mim mesma. Uma gémea. Mas não era eu. O que à minha frente se encontrava era um corpo cuja alma andava perdida. Uma alma que se parecia ter esquecido que possuía um corpo. Tudo começou com a decisão que não queria ser quem de momento era e com a aceitação que não podia voltar a ser quem outrora tinha sido. Porque ser quem fui era impossível. Porque a dor, o sofrimento altera qualquer essência. Mas lá por estarmos partidos, lá por nos sentirmos perdidos, não quer dizer que sejamos menos merecedores do futuro que diante nós se estende. Não quer dizer que já não tenhamos direito à vida. Não quer dizer que estejamos condenados. Porque o que nos condena é, sim, a desistência. É conformarmo-nos com a tristeza e não exigir nada de mais para quem somos. O que nos condena é envolvermo-nos de tal forma na nossa relação com outros que nos esquecemos completamente da relação que temos connosco mesmos.
E todos os dias são hoje uma batalha. Uma batalha que nunca pedi mas que me foi atribuída. Dizem que as batalhas mais difíceis de travar são atribuídas aos mais fortes guerreiros. Será verdade? Gosto de pensar que sim. Porque, apesar de tudo, o irrevogável facto é que ainda aqui me encontro, depois de me ter defrontado com provas que antes me pareciam impossíveis. Batalho então para que um dia possa olhar para o meu reflexo e reconhecer-me na imagem que à minha frente se encontra. Batalho diariamente, tentando-me tornar em quem quero ser. Tentando personificar os sonhos da menina que era antes de tudo acontecer. Antes dos passados acontecimentos que nunca pedi para viver. Antes de ti. Antes de mim. Antes de nós.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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