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Inspiration Lab

amante indigno

Eu podia amar-te. Cuidar-te. Podia ser quem tu procuras. Podia ser quem te consola, quem te motiva, quem te faz sentir viva. Podia ser quem tu mais precisas de conhecer. Podia levar-te em viagens por terras que nem sabes que existem. Podia fazer-te rir até esqueceres todos os que te fizeram chorar. Podia apagar em ti o sofrimento. Podia fazer teu todo o momento. Podia iluminar-te. Eu podia amar-te.
Podíamos ser um só, mas a vida de mim não tem dó. E estou destinado a suspirar por quem por outros suspira. E ouvir-te falar de quem o teu coração tanto faz palpitar mata-me devagar. E saber que para mim és tudo enquanto aos teus olhos sou pouco mais que nada corta-me o respirar.
Eu podia amar-te. Mas o amor parece desprezar quem mais ama. E enquanto tu suspiras quando o vês passar, eu fico no meu lugar, tentando ignorar sentimentos tão fortes que se recusam a me abandonar. E contenho a minha ira quando te vejo desesperar, inutilmente tentando agarrar a atenção de quem já te ultrapassou. Eu podia amar-te, mas estás presa a quem um dia te amou. Eu podia amar-te, mas tu só amas quem já não te quer. Eu podia amar-te, mas pareces determinada a perder. Eu podia consolar-te nessas noites em que de ti o teu sofrimento brota por quem mais desejas não se deter a em ti pensar. Eu devia afastar-me, com pouco não me contentar. Mas limpar as tuas lágrimas, secar o sofrimento que outro em ti plantou é mais do que amar-te ao longe mais do que alguém amou. Então se é meu destino ser o confidente amigo, amante indigno, é isso que sou. Nunca pensei nem de mim próprio ser rei mas é num servo do que queres, do que sentes, de quem amas, que a vida me tornou. E onde está essa revolta que devia sentir por de mim me teres roubado? E onde está o meu desespero por me sentir tão pouco desesperado? Talvez tenham partido pelo mesmo caminho que tomou tudo o resto que um dia fez parte de mim mas que hoje já não é parte de quem sou.

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Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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