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Inspiration Lab

Alternativas

Às vezes deixo-me ficar. Não só mergulhar, mas deixar arrastar aqueles momentos em que sou infinito. Sentir-me parte de algo maior. Ter tudo em meu redor. Tudo tão cheio à minha volta e, mesmo assim, se me mover, o que me rodeia encontra outra maneira de me rodear. Quando me movo por ela, movo-me pelo mundo. Ela oferece resistência, mas dá-me tanta leveza quanto a que preciso para por ela poder viajar. Podia chegar assim à América, mas talvez não conseguisse aguentar. Acho que podia ficar para sempre nesse tipo de harmonia. Dentro dela não há noite, é calmo o dia. Às vezes descuido-me. Distraio-me com os encantos desse mundo tão bom, que não é meu. Sou demasiado humano para o sonhos que passo o dia a sonhar. Pesa-me o peito, começa-me o coração a martelar. Há que ascender, o meu corpo implora por ar.
É fácil amar um mundo desconhecido. Um mundo que só posso conhecer um minuto de cada vez. Difícil é voltar à rotina, olhar os mesmos olhares, sentir os mesmos ventos, cruzar os mesmos caminhos, e sentir que essa mesma firme terra que sempre se pisa ainda tem muito para nos dar. É por isso que gosto tanto de atingir a superfície. Naquele momento, ao recolher o ar que acalma o meu corpo em sofrimento, não é apenas nada que em mim entra. Ele tem cheiro, tem cor, tem sabor. É tudo o que preciso para ser alguém melhor. Nesse primeiro fôlego, o ar que me preenche é tudo de que necessito. É muito mais do que algo que se esquece, tão mais do que normal. É vital.
Às vezes tento, mas não consigo. Não sou capaz de me lembrar. Gostava de ter lá estado. Gostava de ainda lá estar, nesse momento em que esse fôlego foi mesmo o primeiro, depois de viver num outro mundo durante bem mais do que apenas um minuto. O ar deve ter parecido estranho. Pouco natural. Mas fresco. Limpo. Puro. Uma folha em branco sobre a qual tanta tinta viria a derramar. Mas os segundos passaram. Ainda passam. E tão rápido que passam. E esse sôfrego sorver fica perdido, soterrado, o primeiro em milhares, tão desvalorizados como esquecidos. E o ar vai ficando mais pesado, vai caindo sobre nós. Torna-se bafiento, saturado com as futilidades de um mundo que não reconhece a importância do respirar.
Eu sei que esse primeiro aspirar de vida foi bom. Teve que ser. Mas chorei, e voltaria a fazê-lo. Presumo que todos o façam, e não sei porquê. Perguntem-lhes, talvez vos saibam dizer. Eu chorei, e sei porquê. Esse alternativo mundo líquido é calmo. É pacífico. Mas não é silencioso. Suponho que não entendesse o que eles diziam, com todas as camadas que me separavam desse mundo real, que de real tem muito pouco. Suponho que fosse novo demais para entender, de qualquer maneira.
Porque não há líquidos, membranas ou tecidos, não há portas, música alta ou tampões para os ouvidos capazes de bloquear os sons do inferno que agora oiço e que devo ter ouvido a partir desse tão confortável lugar. Há sons universais, que nos dizem que nada está bem. Há sofrimentos que neste mundo não encontram iguais, como ouvir os gritos de uma desesperada mãe. E sei porque chorei. Porque saí de lá para aqui, tendo ouvido o que eu ouvi. Lá dentro não podia fazer nada, era só uma criança, uma obra longe de ser terminada. E agora eu não faço nada, sou só uma criança, e não posso ajudar a minha mãe. Eu queria ser corajoso, mas julgo que sou algo medroso, pois não quero que ele me bata também.

Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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