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Inspiration Lab

A Menina Dos Teus Olhos

Dizem que era a menina dos teus olhos. Por pouco tempo o fui. Ou será que, onde quer que estejas, ainda o sou? Ao fitar o teu olhar vazio, parece difícil imaginar que já brilhou por alguém. Parece impossível acreditar que já viveste. Que já tiveste dificuldades. Medos. Preocupações. Porque em ti outro olhar que não fosse o vazio nunca conheci. Um corpo cuja alma fugiu para parte incerta.
Nunca quis obrigar-te a ficar. Mas deixar-te partir é um longo e difícil processo que duvido algum dia ter fim. Porque onde muitos apenas viam um olhar vazio, uma presença acessória, eu via alguém que alguém já tinha sido. Alguém que certamente tudo daria para ser mais do que um olhar vazio. E ver o sol a nascer e saber que nascia. E ver-me a crescer e saber que crescia. Porque a assoladora saudade que prefiro tentar esquecer não é do que eras, mas do que foste. Esse ser que nunca conheci mas tudo daria para ter conhecido.
Impossível saber e gostar de quem eras? Duvido. Dizem que os olhos são a janela para a alma. E mesmo vazios, os teus eram. A janela para a alma que tão cruelmente te tinha abandonado, mas que deixou ficar alguns vestígios dentro de ti. A alma brincalhona, a alma apaixonada. A alma cativante que todos encantava. A alma que possivelmente se lembrava que eu era alguém, por muito que não soubesse quem.
E isso era suficiente, sempre foi. A vida não é justa, nunca foi. Perguntei-me muitas vezes porquê. Porquê tu. O que fizeste para merecer tão maldita sorte? Que mal fizeste tu para que te tenham retirado a possibilidade de viver, mas mantendo-te a respirar? Que atrocidade tão desumana cometeste tu para mereceres esta sorte? Afinal o que é isto, precoce morte?
Espero que agora a tua alma tenhas encontrado. Espero que tenhas encontrado todos os que tão cruelmente te foram retirados. E que zeles. Que zeles por todos os tempos em que não pudeste zelar. Por todos aqueles tempos em que pela vida te limitaste a arrastar. Porque não te deram outra opção. Não te deixaram ver quem querias ver brilhar.
E seria com orgulho que para mim olharias? Ou com vontade de algo em mim modificar?
Porque por muito que por metade, o que podias ser para mim sempre foi suficiente. Sempre chegou. Porque mesmo assim, ainda eras gente. Gente que um dia viveu. Gente que um dia amou. Gente que pelos caminhos da vida andou. Gente que muitas batalhas travou.
Porque tudo nesta vida eu daria, se por um só dia pudesse voltar a ser a menina dos teus olhos. E já nem pedia que fossem os olhos que me viram nascer. Porque para mim sempre foi suficiente ser a menina dos teus olhos meio-vazios, que tudo viam sem nada realmente ver.

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Luísa

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade." - José Saramago

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